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ARTIGO | QUALIDADE

Gestão de Ativos no Metrô de São Paulo: Qualidade, Monitoramento e Inteligência Artificial como Fundamentos da Segurança Operacional

Por: Alexandre de Maio Parpinelli, Carlos Alfredo Santos, Gilson Cappellano e Marco Aurélio Borges Nogueira.

1. Introdução

O Metrô de São Paulo é operado como infraestrutura crítica para a mobilidade urbana da Região Metropolitana de São Paulo, sendo exigida elevada regularidade na prestação do serviço em um ambiente caracterizado por alta complexidade técnica e operacional. Nesse contexto, a gestão da operação é conduzida sob restrições simultâneas, nas quais o risco operacional é mitigado, a confiabilidade e a disponibilidade dos sistemas são preservadas e a redução de custos ao longo do ciclo de vida dos ativos é perseguida sem comprometer a segurança operacional.

No sistema integrado de mobilidade urbana, os modais sobre pneus realizam a coleta capilar da demanda nos bairros e direcionam os fluxos de maior intensidade para o transporte sobre trilhos. Nesse arranjo, o Metrô de São Paulo consolida-se como elemento estruturante do deslocamento urbano de massa ao absorver, em suas linhas de maior demanda, volumes da ordem de 60.000 passageiros por hora por sentido. Essa capacidade somente é viabilizada porque a operação diária do sistema é sustentada pelo desempenho coordenado de um conjunto amplo e integrado de ativos, distribuídos entre material rodante, via permanente, sistemas de energia, sinalização, estações e centros operacionais. A indisponibilidade ou a degradação desses ativos reflete-se diretamente na capacidade de atendimento da demanda, impactando a regularidade do serviço, a segurança operacional e a confiança da sociedade no transporte público sobre trilhos.

Como resposta a esse contexto, é estruturado um modelo de gestão orientado por padrões de qualidade, monitoramento contínuo e uso intensivo de dados, no qual o Sistema de Monitoramento de Ativos (SMA) é adotado como infraestrutura corporativa de suporte à decisão. Por meio da coleta, transmissão, processamento e disponibilização de dados operacionais em tempo quase real, o SMA sustenta a evolução das estratégias de manutenção, viabilizando abordagens preditivas e prescritivas orientadas por dados e risco, com foco na deteção do defeito ou na antecipação de falhas funcionais, no aumento da disponibilidade dos ativos operacionais.

2. Definindo Ativos Metroviários Operacionais 

São sistemas, compostos por diversos equipamentos, que se relacionam diretamente ao “core business” de transporte de passageiros.

Cabe ressaltar que sistemas administrativos não compõem o rol dos “Ativos Metroviários Operacionais”, ou seja, redes computacionais administrativas onde circulam dados de e-mail, textos, apresentações etc. bem como seus servidores e periféricos, como o computador onde está sendo digitado este texto, não fazem parte.

Similar ao transporte de carga através de trilhos e seus componentes básicos como, por exemplo, o truque e as rodas, o deslocamento de passageiros ainda exige uma grande quantidade de sistemas. De forma macro, é possível dividi-los em 6 grandes grupos: 

  • Sistema de eletrificação: Considerada de forma genérica a grande “tomada de energia” do Metrô, alimenta todo o sistema, desde o trem até os de sistemas de controle e auxiliares. Sua complexidade destaca-se, além da automação, na redundância da alimentação elétrica, onde a ausência de energia em determinado trecho de via é suprido pelos adjacentes. Incluem-se os sistemas redundantes, tipo “no-break”, que suprem as estações e os Centros de Controle Operacional – CCOs;
  • Sistemas de controle e sinalização: São responsáveis por distribuir os trens, de forma segura ao longo da linha, sendo concebidos segundo o princípio de falha segura “fail safe”, intrínseco ao seu projeto. No Metrô de São Paulo há dois tipos principais de sistemas: o de bloco fixo (ATP – Automatic Train Control, ATO – Automatic Train Operation e ATC – Automatic Train Control), no qual a via é dividida em trechos lógicos. Para cada trecho é determinada uma velocidade máxima permitida que cada trem deve seguir, definida em função da posição do trem dentro do próprio trecho e da presença de outras composições nos trechos adjacentes e o de bloco móvel  (CBTC “Comunication Based Train Control”)   que realiza o controle automático da movimentação dos trens nas vias baseado em comunicação digital contínua e bidirecional trem–via, permitindo uma maior aproximação entre trens devido a determinação precisa e contínua da posição dos trens ao longo das vias e o controle seguro de sua movimentação;
  • Sistemas de fluxo de passageiros: Estes destinam-se a garantir que aqueles que se utilizam do Metrô o façam de forma segura e confortável, além de oferecer suporte às ações das equipes de funcionários do Metrô. São eles: Monitoramento Eletrônico (câmeras), Escadas Rolantes, Portas de Plataforma, Bilhetagem Eletrônica (catracas), Telefonia, “Backbone” de Transmissão de Dados, Rádio Comunicação Digital, Interação com os passageiros (Audição Pública, Relógios e Monitores c/informações ao público) e Controle de Acesso (áreas internas);
  • Via permanente: trilhos, brita, laje suporte, dormente, sistema massa mola de sustentação, aparelhos de mudança de via (AMV), seccionadoras de via e terceiro trilho (alimentação elétrica dos trens), engraxadeiras etc.  Para o monotrilho: viga suporte, “track switch” (equivalente ao AMV), 4º e 5º trilhos (alimentação elétrica dos trens) etc.;
  • Material Rodante: Nos trens, tem-se os sistemas embarcados como truques, rodas de aço ou com pneus (monotrilho), freios, ventilação/ar-condicionado, propulsão, sonorização (avisos aos passageiros), portas, câmeras, detecção de fogo e fumaça, baterias, suprimento de ar, fusível de sapata, suprimento elétrico, TCMS – “Train Control and Management Systems” (CBTC embarcado) etc.;
  • Sistemas Auxiliares: compreendem o conjunto de sistemas técnicos que suportam a operação, a segurança, o conforto e a manutenção do sistema metroviário, não estando diretamente ligados à tração ou à sinalização dos trens, mas sendo essenciais para a disponibilidade e a confiabilidade da operação como escadas rolantes, elevadores, portas de plataforma, detecção de incêndio etc.;
  • Instalações Civis: Túneis, elevados, pátios e estações;

Estes sistemas se interagem a todo momento, compondo uma grande orquestra que garantem ao passageiro, que embarca na estação de origem, chegar na estação de destino com previsibilidade, segurança e um mínimo de conforto.

3. Segurança e Qualidade Trafegam nos Mesmos Trilhos

O sistema metroferroviário do Metrô de São Paulo exerce impacto direto e cotidiano sobre a dinâmica urbana da cidade. A interrupção ou degradação parcial do serviço, ainda que de curta duração, produz efeitos imediatos sobre a vida dos usuários, refletindo-se em atrasos no trabalho, prejuízos às atividades educacionais e no comprometimento de atendimentos essenciais, como consultas médicas previamente agendadas. Além dos impactos individuais, tais ocorrências repercutem rapidamente na opinião pública, ampliadas por meios digitais e redes sociais, afetando a percepção de confiabilidade do serviço prestado.

Em razão desse caráter coletivo, os sistemas metroferroviários são classificados como críticos, uma vez que falhas técnicas extrapolam o âmbito operacional e produzem consequências sociais, institucionais e econômicas. A segurança operacional, nesse contexto, é condicionada à conformidade técnica dos ativos que sustentam a operação. Os produtos, sistemas e serviços desenvolvidos e mantidos dentro de padrões técnicos bem definidos reduzem a probabilidade de falhas, mitigam riscos sistêmicos e conferem previsibilidade quanto à durabilidade e à vida útil dos ativos, desde que respeitados os limites de projeto e suas capabilidades intrínsecas.

Um dos principais desafios enfrentados pelas equipes de manutenção reside na preservação das características de manutenibilidade ao longo do tempo. O avanço dos ciclos de uso, aliado ao fenômeno da obsolescência tecnológica, tende a impactar negativamente a disponibilidade operacional dos sistemas. Nesse cenário, a padronização técnica torna-se elemento essencial para garantir previsibilidade e resiliência, ao viabilizar a interoperabilidade entre diferentes fabricantes e assegurar o fornecimento contínuo de peças e componentes críticos. A ausência de padronização eleva o risco de indisponibilidade funcional e compromete a segurança do sistema como um todo.

No contexto do monitoramento de ativos do Metrô de São Paulo, a qualidade deixa de ser apenas um requisito normativo e passa a ser verificada continuamente por meio de dados operacionais. O Sistema de Monitoramento de Ativos (SMA) permite que desvios de comportamento, anomalias e defeitos sejam identificados em estágio inicial, antes da evolução para falhas funcionais. Dessa forma, a qualidade é operacionalizada no dia a dia da manutenção, sustentando decisões baseadas em evidências e fortalecendo a segurança operacional do sistema.

4. Monitoramento de Ativos: Um marco na manutenção metroferroviária

Diferentemente de parques industriais concentrados, como os observados em plantas petroquímicas, o parque de equipamentos que compõe a automação metroferroviária do Metrô de São Paulo encontra-se distribuído ao longo de dezenas de quilômetros, atravessando áreas densamente urbanizadas e regiões periféricas. Essa característica impõe desafios operacionais relevantes à manutenção, uma vez que os ativos críticos encontram-se fisicamente dispersos entre estações, túneis, vias, pátios e sistemas embarcados, ampliando a complexidade logística e os custos associados à atuação em campo.

Nesse contexto, o deslocamento das equipes de manutenção para atividades preventivas ou corretivas passa a representar parcela significativa do custo operacional, além de expor os profissionais a riscos adicionais, como acidentes de trânsito, atrasos decorrentes do tráfego urbano, indisponibilidade de veículos e situações de segurança pública. Em cenários de falha, esses fatores podem retardar o atendimento corretivo e ampliar o impacto operacional da ocorrência. O monitoramento de ativos reduz significativamente essa dependência do deslocamento físico, pois “encurta a distância” entre o evento e a análise técnica, permitindo que a condição do equipamento seja avaliada remotamente, com maior precisão e assertividade.

4.1. Sistemas de Monitoramento e Arquitetura do SMA

No Metrô de São Paulo, o monitoramento em larga escala é viabilizado pelo Sistema de Monitoramento de Ativos (SMA), concebido como infraestrutura corporativa para aquisição, transmissão, processamento e disponibilização de dados operacionais. Por meio de dispositivos de campo, sensores e módulos de aquisição denominado de Módulo Data Logger (MDL), as grandezas relevantes ao desempenho dos ativos são coletadas e tratadas, permitindo a visualização “on-line” do estado operacional dos equipamentos.

A arquitetura do SMA, vide figura 1, é complementada por plataformas de processamento (PMA), sistemas supervisórios e pelo Centro de Controle da Manutenção (CCM), responsável pela consolidação e análise das informações. Essa estrutura permite que falhas potenciais sejam delimitadas com maior precisão, reduzindo o escopo da intervenção e orientando a atuação das equipes de manutenção de forma direcionada e baseada em evidências.

Figura 1 – Sistema de Monitoramento de Ativos (SMA)

4.2. Monitoramento de Ativos e o Conceito de Ativo Monitorado no Metrô de São Paulo

No Metrô de SP, o ativo monitorado é todo e qualquer equipamento, máquina ou local físico cuja condição operacional pode ser acompanhada de forma contínua por meio do Módulo Data Logger (MDL) e sensores, ou nativamente a partir de protocolos compatíveis com a rede operacional do Sistema de Monitoramento de Ativos (SMA). Essa definição permite a inclusão de ativos de Tecnologia Operacional, elementos de rede e ativos de campo, desde que a observabilidade seja tecnicamente viabilizada por aquisição dedicada ou integração sistêmica. A partir dessa base conceitual, o monitoramento contínuo passa a fornecer visibilidade operacional em larga escala, permitindo que o estado dos ativos seja conhecido de forma estruturada e rastreável. Diferentemente de abordagens pontuais de supervisão, o monitoramento adotado no Metrô de São Paulo é orientado à identificação de desvios, anomalias e tendências de degradação, criando as condições necessárias para a antecipação de riscos e para a atuação técnica antes da indisponibilidade funcional.

1. Monitoramento de Ativos, Indicadores de Desempenho e Uso de Dados para Tomada de Decisão

O monitoramento contínuo de ativos é estruturado como elemento central de suporte à tomada de decisão técnica. A coleta sistemática, o tratamento e a análise das informações operacionais viabilizam a transição de uma manutenção predominantemente preventiva, baseada em estimativas de tempo, rodagem acumulada do material rodante ou ciclos de uso, para uma manutenção orientada por condição, na qual o estado real do equipamento é conhecido em tempo quase real.

Atualmente, o parque operacional é composto por 22.418 ativos cadastrados, dos quais 9.368 são monitorados de forma contínua, correspondendo a aproximadamente 41,8% do total. Esse conjunto inclui ativos críticos, como portas de plataforma, sistemas embarcados de trens, escadas rolantes e outros sistemas essenciais à operação, cujo desempenho é determinante para a segurança operacional, a regularidade do serviço e a capacidade de atendimento da demanda.

As informações geradas pelo Sistema de Monitoramento de Ativos (SMA) alimentam indicadores de desempenho que subsidiam tanto ações imediatas, como o suporte às equipes corretivas durante ocorrências críticas, quanto decisões de médio e longo prazo. Esses dados compõem um histórico técnico estruturado, utilizado para o aprimoramento de processos, o planejamento mais eficiente das intervenções, a alocação adequada das equipes e a condução de estudos relacionados à obsolescência e à substituição de ativos. Nesse ambiente, o monitoramento deixa de ser apenas supervisão e passa a sustentar decisões baseadas em evidências operacionais consistentes.

2. Manutenção Preventiva, Preditiva e o Papel do DDM na Inteligência Operacional

A evolução do monitoramento conduz, de forma natural, à incorporação do Defeito Detectado pela Manutenção (DDM) como mecanismo operacional de antecipação. O DDM é caracterizado como a identificação de anomalias ou defeitos em estágio anterior à ocorrência da falha funcional, permitindo que a intervenção seja realizada em momento tecnicamente mais adequado e com menor impacto à operação. Essa abordagem estabelece uma distinção conceitual clara entre defeito e falha, alinhando-se às práticas modernas de confiabilidade e manutenibilidade.

A atuação baseada em DDM permite que a manutenção passe a operar de forma proativa, mitigando a evolução para falhas funcionais, preservando a disponibilidade dos ativos críticos e reduzindo riscos sistêmicos associados à operação metroferroviária. Essa prática é viabilizada pela consolidação das informações no Centro de Controle da Manutenção (CCM), figura 2, que atua como núcleo de análise, correlação de eventos e resposta operacional em regime 24×7.

Figura 2 – Centro de Controle da Manutenção (CCM) do Metrô de São Paulo.

A efetividade desse modelo é evidenciada por indicadores quantitativos consolidados, em 2025, são registrados aproximadamente 2.400 DDMs em ativos monitorados, associados a mais de 7.250 horas de apoio técnico às equipes de campo e à mitigação de cerca de 3.600 cancelamentos de viagens no período analisado. Esses resultados demonstram que o monitoramento, aliado ao uso sistemático do DDM, consolida-se como elemento de inteligência operacional, sustentando a antecipação de riscos, a revisão de processos, a padronização das práticas de manutenção e o aumento da maturidade da gestão de ativos no Metrô de São Paulo.

5. Normas Técnicas como Parâmetros

Com o objetivo de garantir a segurança e a confiabilidade operacional, a concepção, a implantação e a manutenção dos sistemas metroferroviários são orientadas por normas técnicas nacionais e internacionais, que estabelecem parâmetros objetivos de desempenho, segurança funcional, compatibilidade e qualidade. O respeito a essas normas assegura a equalização técnica entre fornecedores, fornece base paramétrica para processos de certificação no setor e oferece referências sólidas e confiáveis ao corpo técnico das operadoras, aos passageiros e à sociedade em geral.

A integração entre normas técnicas, certificação e prática operacional não apenas fortalece a segurança do sistema, como também contribui para a perenidade econômica da operadora, ao alinhar a gestão de ativos às melhores práticas reconhecidas por agências reguladoras e organismos certificadores. Nesse contexto, o monitoramento contínuo de ativos permite verificar, de forma sistemática, a aderência do comportamento real dos sistemas aos limites estabelecidos em projeto e em normas, reforçando a tomada de decisão baseada em dados e risco.

5.1 Normas Técnicas Aplicáveis ao Sistema Metroferroviário

As normas técnicas a seguir representam as principais referências aplicáveis ao sistema metroferroviário, não sendo exaustivas, podendo ser complementadas por outros normativos específicos conforme o escopo, a tecnologia empregada e os requisitos regulatórios vigentes.

  • IEC 60571 — Railway applications – Electronic equipment used on rolling stock: Estabelece requisitos de projeto, construção, ensaios e condições de operação para equipamentos eletrônicos embarcados no material rodante, abrangendo sistemas de controle, proteção, alimentação e diagnóstico.
  • IEC 61508 — Functional safety of electrical, electronic and programmable electronic (E/E/PE) safety-related systems: Norma base de segurança funcional que define o ciclo de vida de segurança, a análise de riscos e os níveis de integridade de segurança (SIL) para sistemas críticos.
  • EN 50126 / EN 50126-1 — Railway applications – The specification and demonstration of Reliability, Availability, Maintainability and Safety (RAMS): Define o processo de gestão do ciclo de vida RAMS, integrando confiabilidade, disponibilidade, manutenibilidade e segurança ao longo de todo o sistema ferroviário.
  • EN 50128 — Railway applications – Communication, signalling and processing systems – Software for railway control and protection systems: Estabelece requisitos para desenvolvimento, verificação e validação de software aplicado a sistemas de controle e proteção ferroviária, conforme níveis de integridade de segurança.
  • EN 50129 — Railway applications – Communication, signalling and processing systems – Safety-related electronic systems for signalling: Trata da segurança de sistemas eletrônicos de sinalização, com foco na arquitetura, análise de falhas e elaboração do Safety Case para certificação e aceitação operacional.
  • EN 50159 — Railway applications – Safety-related communication in transmission systems: Define requisitos de segurança para comunicações ferroviárias em redes abertas e fechadas, sendo especialmente relevante para sistemas baseados em comunicação, como CBTC.
  • EN 50121 (série) — Railway applications – Electromagnetic compatibility (EMC): Conjunto de normas que estabelece requisitos de compatibilidade eletromagnética para material rodante, sistemas de sinalização, telecomunicações e instalações de energia, garantindo a coexistência segura entre subsistemas.
  • IEEE 1474 — IEEE Standard for Communications-Based Train Control (CBTC) – Performance and Functional Requirements: Define requisitos funcionais, de desempenho, disponibilidade e segurança para sistemas de controle de trens baseados em comunicação, amplamente utilizados em sistemas metroferroviários modernos.
  • ABNT NBR 5410 — Instalações elétricas de baixa tensão: Norma brasileira que estabelece requisitos para projeto, execução, verificação e manutenção de instalações elétricas de baixa tensão, com foco na segurança das pessoas, confiabilidade da instalação e integridade dos sistemas elétricos.

Dessa forma, a aplicação integrada de normas técnicas, certificação e monitoramento contínuo de ativos consolida um modelo de gestão orientado por dados, risco e segurança, assegurando confiabilidade operacional e qualidade sustentada no sistema metroferroviário.

6. Transformação digital e Inteligência Artificial gera inovação na Manutenção

A transformação digital aplicada à manutenção metroferroviária é sustentada pela digitalização dos ativos, pela instrumentação com sensores e pelo uso estruturado de dados operacionais. O monitoramento tem como objetivo coletar dados que refletem o comportamento físico dos equipamentos, a partir da observação de grandezas como tensão, corrente, vibração, pressão, temperatura e som. Com base no efeito físico a ser observado, são selecionados sensores adequados às condições ambientais, às grandezas medidas e ao custo, assegurando que os dados coletados representem a condição normal de operação, tendências de degradação e a ocorrência de falhas.

Após a aquisição, ocorre a digitalização do sinal, na qual a grandeza física é convertida em sinal elétrico e transmitida a coletores de dados, que realizam o tratamento inicial e o encaminhamento para redes de comunicação ópticas ou sem fio. Nesse processo, os dados são estruturados e enriquecidos com informações como identificação do sensor, data e hora, ativo monitorado e sistema associado. Em seguida, esses dados são processados em servidores computacionais, onde desvios em relação a padrões predefinidos geram alarmes visualizados no Centro de Controle da Manutenção (CCM), permitindo atuação rápida e direcionada das equipes técnicas.

6.1. Digitalização, Big Data e Inteligência Artificial na Manutenção

Como consequência direta da telemetria e do monitoramento contínuo, observa-se o crescimento do volume, da variedade e da velocidade dos dados gerados. Quando esses dados apresentam os cinco atributos típicos de Big Data:  volume, velocidade, variedade, veracidade e valor, tornam-se aptos a serem explorados por ferramentas de Big Data Analytics e de Inteligência Artificial (IA). Essas ferramentas permitem identificar padrões complexos e correlações que não seriam perceptíveis por análise humana tradicional, elevando a manutenção a um novo patamar de maturidade.

A Inteligência Artificial, ao ser aplicada a esse contexto, passa por um processo de treinamento que resulta na construção de modelos matemáticos e estatísticos capazes de indicar a probabilidade de ocorrência de falhas. O retreinamento periódico desses modelos com novos dados aumenta progressivamente a assertividade das previsões. Recomenda-se que a aplicação da IA seja iniciada de forma incremental, a partir de sistemas específicos como, por exemplo, a climatização de uma frota e posteriormente expandida para outros subsistemas, como tração e freio, reduzindo riscos e facilitando a validação técnica.No Metrô de São Paulo, a utilização de Edge Computing reforça essa arquitetura ao permitir que parte do processamento seja realizada próxima à fonte dos dados. O Módulo Data Logger (MDL), figura3, desenvolvido internamente e com pedido de patente junto ao INPI, atua como elemento de aquisição e processamento em borda, aumentando a robustez, a resiliência e a confiabilidade do sistema de monitoramento.

Figura 3 – Módulo Data Logger (MDL) desenvolvido pelo Metrô de São Paulo

6.2. Aplicações Práticas, Resultados Operacionais e Cultura de Inovação

A aplicação da transformação digital e da IA em sistemas críticos tem gerado resultados concretos na manutenção metroferroviária. No Sistema de Ventilação Principal (SVP), sensores permitem identificar padrões de desgaste, desalinhamentos e folgas mecânicas, aumentando a confiabilidade de um sistema essencial tanto à operação normal quanto à segurança em emergências. Na climatização da frota M, a implementação de IA resultou na redução de falhas operacionais, além de economias anuais em horas de trabalho e na substituição de componentes.

De forma semelhante, o monitoramento das Portas de Plataforma (PSDs) tem contribuído para o aumento da disponibilidade e da segurança dos passageiros, com economia direta em 2025. Considerando que indica potencial de economia ano a ano. No sistema de portas dos trens, o monitoramento inteligente e o uso de modelos de Machine Learning possibilitam redução no tempo de atendimento corretivo, apesar dos desafios associados à menor variabilidade dos dados.

Além dos ganhos técnicos e econômicos, a adoção da IA promove uma cultura de melhoria contínua, na qual o conhecimento das equipes técnicas é incorporado ao treinamento dos modelos e retroalimentado pelos resultados obtidos. A interação entre tecnologia e pessoas reduz a complexidade das atividades de manutenção, aumenta a confiança nas decisões e estimula a participação ativa das equipes por meio de sugestões e inovações, consolidando um modelo de manutenção mais assertivo, colaborativo e orientado por dados.

A jornada do Metrô de São Paulo rumo à manutenção prescritiva baseada em IA demonstra que a inovação não é um evento isolado, mas um processo contínuo em fases. A criação de um parque de IA para manutenção vai consolidar a infraestrutura tecnológica e metodológica necessária para sustentar soluções inteligentes em larga escala, garantindo governança, segurança e integração entre sistemas.

O próximo passo é o escalonamento estruturado, transformando iniciativas pontuais em um ecossistema robusto de manutenção inteligente. Isso envolve padronização de pipelines de dados, automação de modelos, integração com mais sistemas SCADA e capacitação contínua das equipes. Ao consolidar essa estratégia, o Metrô SP não apenas antecipa falhas, mas redefine a gestão de ativos, posicionando-se mais uma vez como referência em inovação e excelência operacional no transporte metroferroviário.

7. Conclusão

A experiência do Metrô de São Paulo evidencia que a relação entre qualidade, monitoramento contínuo e segurança operacional é indissociável em sistemas metroferroviários de alta complexidade. A qualidade dos ativos e dos processos é continuamente verificada por meio do monitoramento, que fornece visibilidade operacional em tempo quase real e sustenta a antecipação de falhas, a mitigação de riscos e a preservação da confiabilidade do serviço. Nesse contexto, o monitoramento deixa de ser apenas um mecanismo de supervisão e passa a atuar como elemento estruturante da segurança, integrando dados, padrões técnicos e decisão operacional.

Paralelamente, a gestão de ativos consolida-se como estratégia institucional, alinhada aos objetivos de segurança, eficiência econômica e sustentabilidade. Ao incorporar transformação digital e inteligência artificial, a manutenção passa a desempenhar papel estratégico na garantia da regularidade do serviço, reforçando o compromisso do setor metroferroviário com a mobilidade urbana sustentável, capaz de transportar grandes volumes de passageiros com menor impacto ambiental e elevado benefício social. A excelência na gestão de ativos não é apenas uma exigência técnica é um compromisso público com a segurança e a confiança da sociedade.

AUTORES

Alexandre de Maio Parpinelli

Pós-graduado Big Data e Machine Learning (UNIFASAM), Engenheiro Eletricista – Modalidade Eletrônica (Mackenzie), Tecnólogo em Eletricidade (Mackenzie) e Técnico em Eletrônica (Liceu de Artes e Ofícios). Supervisor 3 na Coordenadoria de Manutenção do Monitoramento Operacional na Gerência de Manutenção do Metrô-SP.

E-mail: aparpinelli@metrosp.com.br

Carlos Alfredo Santos

Mestrando em Engenharia e Gestão da Inovação (UFABC), pós-graduado em Gestão de Marketing e Estratégias Inovadoras de Mercado (FDC), Pós-graduado em Gestão de Negócios (FDC), Big Data e Machine Learning (UNIFASAM) e Gestão e Tecnologias da Segurança da Informação (FEl). Graduado em Engenharia Elétrica (Estácio) e Técnico em Eletrônica (ETEC Guaracy Silveira). Coordenador de Manutenção do Monitoramento Operacional na Gerência de Manutenção do Metrô-SP. 

E-mail: calfredo.santos@metrosp.com.br

Gilson Cappellano

Bacharel em Ciências da Computação (PUC SP) e Técnico em Eletrônica (ETEC Lauro Gomes). Assessor Técnico III na Gerência de Manutenção do Metrô-SP.

E-mail: gilsoncappellano@metrosp.com.br

Marco Aurélio Borges Nogueira

Gerente de Manutenção da Companhia do Metropolitano de São Paulo – Metrô (desde 2024). Profissional com mais de 35 anos de experiência em manutenção ferroviária, liderança de equipes e implantação de sistemas de monitoramento. Engenheiro Eletricista com MBA em Gestão de Negócios.

E-mail: marco_nogueira@metrosp.com.br