O 2º Encontro IQF reuniu representantes da indústria, operadores, governo e entidades técnicas em um debate qualificado sobre qualidade, segurança e inovação. O evento marcou o lançamento da primeira certificação voluntária do setor e reforçou o papel estratégico da padronização para ampliar a competitividade, reduzir riscos e estruturar a cadeia produtiva ferroviária.
O setor metroferroviário brasileiro vive um momento decisivo de transformação. Impulsionado por novos investimentos e pela ampliação de sua relevância na mobilidade e na logística nacional, o segmento avança rumo a um modelo mais estruturado, no qual qualidade, segurança operacional e previsibilidade passam a ser elementos centrais.
Nesse contexto, a certificação surge como um instrumento estratégico para organizar e fortalecer toda a cadeia produtiva. Mais do que um selo formal, trata-se de um mecanismo capaz de estabelecer critérios técnicos claros, harmonizar práticas e criar uma base comum de referência para fabricantes, fornecedores e operadores.
Esse movimento ganhou forma concreta com a realização do 2º Encontro IQF, em 20 de março de 2026. Liderado pelo Instituto da Qualidade Ferroviária – IQF, protagonista na estruturação da certificação e na articulação técnica do setor, o evento contou com a parceria do Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT, que sediou o encontro em São Paulo.
Reuniram-se representantes do poder público, da indústria, de operadores, da comunidade científica, de agências reguladoras e especialistas de diferentes modais, promovendo uma troca qualificada de experiências. A diversidade dos participantes reforçou o caráter sistêmico do debate e a necessidade de alinhamento técnico entre os diferentes atores.
O Encontro marcou a apresentação pública da primeira certificação voluntária metroferroviária nacional, uma iniciativa inédita no Brasil, com foco em qualidade e segurança no transporte sobre trilhos. Concebida como um instrumento de apoio — e não de restrição —, a certificação foi estruturada para impulsionar a evolução técnica do setor e estimular a adoção de boas práticas.A programação incluiu painéis temáticos e debates intermodais, com a participação de representantes dos setores aéreo, automotivo e marítimo, que compartilharam experiências consolidadas em certificação e gestão da qualidade. Esses aprendizados evidenciaram que a consistência técnica e a disciplina de processos são fatores determinantes para ganhos de segurança, eficiência e competitividade — e plenamente aplicáveis ao transporte sobre trilhos.

Este encontro foi organizado pelo IQF e pelo IPT e com patrocínio do GBMX. Contou com o apoio das entidades participantes da criação do IQF: Abendi, Abifer, Alaf Brasil, SIMEFRE, Coppe/UFRJ, IPT, NDF/MG – Núcleo de Desenvolvimento Tecnológico Ferroviário e o Clube de Engenharia, teve o apoio institucional da Revista Ferroviária e do IX Simpósio de Engenharia Ferroviária.
Abertura: Qualidade em pauta

A sessão de abertura contou com a participação de: na foto, da esquerda para a direita: Adriano Marim de Oliveira, diretor de operações do IPT; Henrique Oliveira Mendes, coordenador-geral do Departamento de Obras e Projetos da Secretaria Nacional de Transporte Ferroviário do Ministério dos Transportes, representando Leonardo Ribeiro, secretário nacional de Transporte Ferroviário; Sirlei José Gonçalves, coordenador de programas da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo; Fernando Martins, presidente do SINPA e diretor adjunto do Departamento de Competitividade e Tecnologia (DECONTEC) da FIESP, representando Paulo Skaf, presidente da FIESP; Sergio Inácio Ferreira, presidente do IQF e pesquisador do IPT; Jean Pejo, secretário-geral da ALAF/BR e diretor do IQF; e Massimo Giavina, vice-presidente do SIMEFRE e diretor do IQF.
Adriano Marim de Oliveira, diretor de operações do IPT, deu as boas-vindas aos participantes, marcando o início de um encontro voltado à construção coletiva de soluções para o setor. Segundo Adriano, o IPT tem na qualidade um de seus pilares históricos, refletido em sua credibilidade e contribuição para o desenvolvimento técnico no país, “Para o IPT, qualidade não é apenas um tema — é parte da nossa história, da nossa credibilidade e da contribuição que damos ao desenvolvimento do país.” Destacou a importância do setor ferroviário também na formação de competências e no desenvolvimento de profissionais ao longo do tempo. Ressaltou o papel do Instituto como parceiro da sociedade, reforçando a necessidade de que o setor apresente suas demandas para orientar pesquisa e inovação “Tragam suas demandas. Somos uma instituição pública e precisamos estar preparados para apoiar o setor, promovendo soluções que fortaleçam sua competitividade e protagonismo.” Enfatizou ainda o valor da integração entre diferentes modais e da troca de experiências. Por fim, apontou a certificação de produtos como uma das contribuições concretas do IPT para o avanço da qualidade no setor.
Dando sequência à abertura, Sergio Inácio Ferreira, presidente do IQF e pesquisador do IPT, afirma que o IQF nasce a partir de uma articulação iniciada em 2023, no IPT, e se consolida em 2024, com o objetivo de estruturar a certificação no setor metroferroviário. Destacou o desafio de construir, desde o início, um modelo voltado à qualidade e à segurança, baseado em certificação voluntária. Ressaltou o avanço dos comitês técnicos — eixo, rodas e material de atrito — e o desenvolvimento das primeiras normas, incluindo a certificação de eixos. Enfatizou também a importância de aprender com outros modais já consolidados e usar referências como inspiração. Por fim, reforçou que a qualidade é a base para o fortalecimento do setor e para sua inserção em padrões mais competitivos e confiáveis.
Massimo Giavina, vice-presidente do SIMEFRE e diretor do IQF, destaca em sua fala que: “O Brasil enfrenta uma lacuna na qualificação técnica de nível médio, especialmente em áreas estratégicas como a ferroviária.” E complementa: “A formação de técnicos especializados é hoje um dos principais desafios do setor metroferroviário, e já estamos estruturando, o SIMEFRE, junto ao SENAI, um curso ferroviário de abrangência nacional. A proposta é conectar formação técnica e demanda do setor, criando uma base estruturada de profissionais qualificados.”
A iniciativa reflete uma mudança importante na forma como o setor se organiza. Historicamente, as ferrovias operaram sob uma lógica em que os operadores concentravam responsabilidades que hoje precisam ser distribuídas de maneira mais eficiente ao longo da cadeia produtiva. A certificação contribui diretamente para essa reorganização, ao estruturar a avaliação técnica de componentes e fornecedores com base em metodologias consistentes e reconhecidas.
Sirlei José Gonçalves, coordenador de programas da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, contribui com sua fala que: “Há muito tempo se fala da importância e da significância do transporte metroferroviário para um país em dimensões como o nosso. Já temos, internacionalmente, o reconhecimento do transporte metroferroviário como uma grande alternativa, com capacidade, amplitude de atendimento e contribuição importante para a sustentabilidade. A proposta de uma certificação, um balizador que ajude a um processo estruturado, é fundamental. Inovar é mais do que trazer o novo. A intencionalidade é fundamental — é importante saber o porquê e para quem.”
Fechando a abertura, Henrique Oliveira Mendes, coordenador-geral do Departamento de Obras e Projetos da Secretaria Nacional de Transporte Ferroviário do Ministério dos Transportes, representando Leonardo Ribeiro, secretário nacional de Transporte Ferroviário, coloca que a criação da Secretaria Nacional de Transporte Ferroviário, em 2023, representa um avanço institucional importante e traz novos desafios para o fortalecimento do setor. O governo federal vem atuando na consolidação de um novo modelo de concessões, na expansão da malha e na estruturação de projetos de transporte de passageiros. Destacou ainda iniciativas para modernizar a gestão do patrimônio ferroviário e ampliar a participação do setor privado. Ressaltou a importância da integração com a indústria, a academia e especialistas para qualificar o debate. Por fim, reforçou que certificação, qualidade e segurança são temas centrais e que o Ministério está aberto à incorporação de pesquisa e inovação nas políticas públicas.
Painel 1 – Lançamento da Certificação Metroferroviária

O Painel 1 contou com a participação de: na foto, da esquerda para a direita (sentados), estão: Aline Cotta Dinis, coordenadora do Organismo Certificador de Produtos (OCP) do IPT; Paschoal De Mario, diretor técnico do SIMEFRE e coordenador do Comitê Metroferroviário da ABNT/CB-06; Paulo Maurício C. F. Rosa, diretor de engenharia para a América do Sul da AmstedRail e coordenador do Comitê de Eixo do IQF; Sergio Inácio Ferreira, presidente do IQF e moderador deste painel; Auteliano Antunes dos Santos Jr., professor titular da UNICAMP e coordenador do Comitê de Material de Atrito do IQF; Luiz Henrique Dias, professor da UFJF e membro do Comitê de Rodas do IQF; e Sebastião Luis Domingos de Castilho, gerente sênior de qualidade da GBMX e coordenador dos comitês para certificação de materiais metroferroviários do IQF.
Como moderador do primeiro painel, Sergio destacou a apresentação dos comitês técnicos responsáveis pelo desenvolvimento das normas de certificação voluntária no setor metroferroviário, em articulação com a Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT e com apoio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT, por meio do organismo certificador de produtos. Anunciou o lançamento da primeira certificação metroferroviária do país, voltada a eixos, já com base normativa estruturada e interesse do mercado. Ressaltou que o modelo é evolutivo, aberto à participação dos agentes do setor e ao aprimoramento contínuo. Destacou ainda o papel dos comitês como base para a expansão da certificação para novos componentes. Por fim, reforçou a importância da colaboração entre os atores para acelerar o desenvolvimento técnico e a consolidação do processo.
Dando continuidade ao painel, Sebastião Castilho afirma que sua trajetória profissional reúne experiência nos setores aeronáutico, automotivo e ferroviário, sempre com foco em desenvolvimento e qualidade. Destacou que os comitês de certificação do IQF partiram do zero, o que permitiu estruturar um modelo alinhado às melhores práticas internacionais. Ressaltou que o trabalho não busca reinventar conceitos, mas adaptar referências já consolidadas à realidade brasileira. Enfatizou a importância de considerar as condições operacionais locais na definição de critérios técnicos. Por fim, reforçou o papel da coordenação dos comitês na construção dessa base para a certificação no setor.
Segundo Luiz Henrique, sua trajetória combina experiência na indústria ferroviária e na academia, com destaque para o desenvolvimento de soluções aplicadas às condições brasileiras. Ressaltou que tecnologias hoje utilizadas, como rodas ferroviárias de alto desempenho, foram desenvolvidas no país, com apoio de instituições como o IPT. Enfatizou a importância dos comitês do IQF e da criação de especificações técnicas para garantir a qualidade de componentes, especialmente diante do aumento de produtos importados. Destacou ainda que rodas são itens críticos de segurança, sujeitos a altas solicitações e riscos operacionais. Por fim, alertou que falhas nesses componentes podem gerar acidentes graves, reforçando a necessidade de normalização e controle rigoroso.
Para Auteliano, sua atuação está concentrada na academia, com destaque para a Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, onde coordena atividades em laboratório ferroviário e infraestrutura de ensaios em escala real. Ressaltou a importância da iniciativa de certificação como forma de estruturar padrões de qualidade sem criar barreiras de mercado, fortalecendo a indústria nacional. Destacou a contribuição das universidades no desenvolvimento técnico dos comitês, especialmente na área de materiais de atrito. Apontou o avanço na definição de escopo e na elaboração de normas, com participação de diversos atores do setor. Por fim, indicou que novas normas devem ser concluídas em breve, ampliando o processo de certificação voluntária.
Dando continuidade ao painel, Sergio destacou que o comitê de eixos alcançou um avanço significativo ao estruturar, em cerca de dois anos, a primeira certificação metroferroviária do Brasil. Ressaltou o papel de Paulo Maurício na coordenação dos trabalhos e o resultado consistente já obtido. Enfatizou que o processo está em andamento e será continuamente aprimorado com a participação do setor. Por fim, reforçou a importância desse marco como ponto de partida para a evolução da certificação.
Paulo Maurício destacou sua trajetória de quase cinco décadas dedicada à indústria ferroviária, ressaltando o compromisso pessoal com o desenvolvimento do setor no Brasil. Enfatizou que a certificação da qualidade representa um verdadeiro divisor de águas para a evolução técnica e competitiva da cadeia metroferroviária. Reconheceu o trabalho coletivo, especialmente a contribuição de especialistas na estruturação de um modelo sólido, alinhado a normas nacionais e internacionais. Ressaltou que o primeiro processo de certificação já está em fase avançada e servirá de base para futuras iniciativas. Por fim, reforçou a importância de fortalecer a engenharia nacional e de transmitir conhecimento às novas gerações como caminho para o avanço do setor.
Paschoal apresentou sua trajetória profissional, destacando sua longa atuação na engenharia, no setor público e no desenvolvimento do sistema ferroviário brasileiro. Ressaltou o papel decisivo que teve na reestruturação do Comitê Brasileiro Metroferroviário (CB6) da ABNT, mobilizando empresas, governo e entidades para fortalecer a normalização técnica no setor. Enfatizou a importância da articulação entre indústria, operadores e instituições para consolidar normas e garantir a evolução da qualidade. Defendeu maior integração entre CB6, ABNT e IQF, incluindo o acesso às normas como elemento estratégico. Por fim, destacou o protagonismo do setor ferroviário de carga e a necessidade de fortalecer a indústria nacional com base em qualidade, certificação e desenvolvimento tecnológico.
Aline apresentou o papel do organismo certificador de produtos do IPT (OCP) na estruturação da certificação metroferroviária, destacando a parceria com o IQF no desenvolvimento do modelo. Explicou que o processo foi baseado em documentos técnicos elaborados pelos comitês e resultou em um regulamento robusto, com auditorias, ensaios e acompanhamento contínuo. Ressaltou que a certificação de eixos é o primeiro produto incorporado ao escopo e seguirá um modelo que garante qualidade ao longo do tempo. Destacou ainda a atuação independente da OCP como terceira parte, assegurando credibilidade ao processo. Para Aline, “A certificação estruturada como terceira parte independente fortalece a confiança, estimula a inovação e eleva a competitividade em toda a cadeia produtiva.” Por fim, enfatizou que a certificação contribui para inovação, competitividade e maior confiança na cadeia produtiva.
No bate-bola do encerramento do painel, o debate destacou o papel central da certificação como instrumento de garantia da qualidade, segurança e evolução tecnológica no setor metroferroviário. Sob diferentes perspectivas, os participantes convergiram na ideia de que a certificação assegura a conformidade com requisitos técnicos, aumenta a confiabilidade dos produtos e reduz riscos operacionais.
“A certificação é a garantia de que o produto cumpriu todas as normas, especificações técnicas, de qualidade, segurança e desempenho”, afirmou Paschoal, ao destacar o papel do processo como um selo de confiança para o mercado.
Também foi ressaltado que a certificação não é um processo estático, mas um mecanismo dinâmico que impulsiona a melhoria contínua e a inovação, ao estabelecer bases seguras para o desenvolvimento de novas soluções. “Ela não é um documento estático — é algo que permite evoluir, melhorar e inovar continuamente”, destacou Paulo Maurício.
Além disso, contribui para a padronização, estabilidade de processos e comparabilidade entre produtos. “Somente com processos estáveis, garantidos pela certificação, é possível implementar melhoria contínua de forma consistente”, ressaltou Luiz Henrique.
Outro ponto de consenso foi a importância de critérios mensuráveis de qualidade, que permitem sair do campo da percepção e garantir desempenho mínimo comprovado. Nesse contexto, a certificação fortalece a engenharia, orienta decisões técnicas e eleva o nível de exigência do setor. “Quando você define parâmetros mínimos e mensuráveis, a certificação garante que o produto atende a esses requisitos”, explicou Auteliano.
Por fim, destacou-se que a adoção de práticas estruturadas de testes, validação e certificação aproxima o setor metroferroviário brasileiro dos padrões internacionais, criando condições para maior competitividade, inovação e segurança ao longo de toda a cadeia. “Nosso objetivo é trazer o setor ferroviário brasileiro para o padrão de qualidade do mercado mundial”, concluiu Sebastião.
CASE – Qualidade: apresentação de case de sucesso – Embraer

Como destaque da programação, foi apresentado o case de Qualidade da Embraer conduzido por Jeunes Fernandes de Lima (na foto acima), gerente da qualidade da Embraer Gavião Peixoto, representando Francisco Gomes Neto, diretor- presidente e CEO da Embraer.
Ao abrir o case, Sergio destaca a importância de trazer referências concretas de sucesso em qualidade e certificação, lembrando que, no 1º Encontro IQF, foi apresentado o case do IQA – Instituto da Qualidade Automotiva, e que, no 2º Encontro IQF, a Embraer foi convidada como exemplo emblemático de excelência em qualidade.
Jeunes apresentou a trajetória da Embraer como um exemplo consistente de como qualidade, certificação e cultura organizacional estruturada são fatores determinantes para competitividade global. Ao contextualizar os mais de 50 anos da empresa, destacou que o reconhecimento internacional não está baseado em preço, mas na confiança construída por meio de processos rigorosos, forte regulação e disciplina técnica ao longo de toda a cadeia produtiva.
Nesse sentido, reforçou que a certificação não é apenas um requisito formal, mas um sistema vivo que garante que aquilo que foi concebido na engenharia seja reproduzido com fidelidade na produção. Esse processo envolve normas, auditorias constantes e a atuação de autoridades reguladoras, assegurando rastreabilidade, padronização e confiabilidade. Como sintetizou: “Uma das coisas que tem tornado a Embraer quem ela é são as certificações, o sistema da qualidade e a parceria com as autoridades.”
Jeunes também chamou atenção para um ponto central no debate: a diferença entre custo e investimento em qualidade. Segundo ele, decisões orientadas apenas por custo podem comprometer a segurança e o desempenho do produto, enquanto o investimento em qualidade reduz riscos, evita falhas e sustenta a reputação no longo prazo. Essa lógica se reflete na cultura da empresa, que prioriza decisões técnicas mesmo diante de pressões operacionais: “A qualidade precisa ser garantida. Não se reduz segurança para reduzir custo.”
Outro aspecto destacado foi a importância da cadeia de fornecedores, que também deve operar sob os mesmos padrões rigorosos. A certificação, nesse contexto, funciona como um mecanismo de alinhamento e controle, garantindo que todos os elos — internos e externos — atendam aos mesmos requisitos técnicos e de desempenho.
Por fim, Jeunes enfatizou que nenhum sistema se sustenta sem pessoas preparadas e engajadas. Na Embraer, a qualidade é um valor incorporado ao dia a dia, presente em todas as etapas — do projeto à operação — e sustentado por uma cultura organizacional clara e consistente. Esse princípio é traduzido no slogan da empresa, repetido por toda a organização: “Safety First, Quality Always”.
A apresentação foi destacada como uma referência inspiradora para o setor metroferroviário, evidenciando que a adoção de sistemas robustos de certificação, aliados a uma cultura de qualidade, é o caminho para elevar o padrão do setor, impulsionar a inovação e garantir segurança e confiabilidade em escala.
Painel 2 – Importância Estratégica da Qualidade nos Transportes

O Painel 2 contou com a participação de: na foto, da esquerda para a direita: Roberto Willians, professor-pesquisador do NDF/MG e conselheiro do IQF; Nelson Eisaku Nagamine, gerente de aeronavegabilidade da ANAC; Bruno Barbosa Batista, gerente de operações da América do Sul do ABS Naval; Antonio Luis de Oliveira Aulicino, gerente executivo da ABENDI, conselheiro do IQF e moderador deste painel; Marcelo Luis Figueiredo Morais, diretor de metrologia legal do INMETRO/MIDC, representando Marcio André Oliveira Brito, presidente do INMETRO/MIDC; Alexandre Xavier Lourenço Martins, superintendente do IQA; e Alexandre Luiz Reder Furtado, chefe da divisão de certificação de produto aeroespacial do IFI.
Dando continuidade ao evento, o Painel 2 foi aberto com a proposta de ampliar o olhar sobre a qualidade no setor metroferroviário, trazendo referências e aprendizados de outros segmentos. A moderação ficou a cargo de Antônio Aulicino, que destacou a relevância de compreender como diferentes indústrias estruturam seus processos de certificação e avaliação da conformidade.
Segundo ele, o objetivo do painel é justamente promover essa troca de experiências, explorando as razões que levaram outros setores a adotar sistemas robustos de certificação e como esses modelos contribuem para elevar padrões de qualidade, segurança e confiabilidade. Aulicino reforçou que a certificação deve ser entendida como um instrumento estratégico de avaliação da conformidade, essencial para o desenvolvimento sustentável dos setores.
O professor Roberto Williams abriu sua participação destacando a importância e o avanço institucional do IQF, parabenizando a liderança e o trabalho dos comitês técnicos na consolidação da iniciativa. Apresentou sua atuação no núcleo de Desenvolvimento Tecnológico de Minas Gerais e ressaltou a evolução das parcerias acadêmicas, que vêm ampliando a integração entre instituições.
Também trouxe a relevância do GPAA (Grupo Permanente de Autoajuda na Área de Manutenção Metroferroviária), definido por ele como o principal fórum de troca de experiências em manutenção metroferroviária da América Latina, reunindo operadores de passageiros e carga.
Sua fala reforçou o valor da colaboração entre universidades, operadores e entidades do setor como base para o desenvolvimento técnico, a disseminação de conhecimento e o fortalecimento da qualidade no sistema ferroviário.
Nelson Nagamine destacou a relevância da experiência da aviação civil brasileira em certificação, ressaltando que esse processo começou a se estruturar a partir da década de 1970, com o surgimento da Embraer e o desenvolvimento do Bandeirante. Desde então, o país construiu um sistema robusto, com mais de 50 anos de evolução, que levou a ANAC a integrar o seleto grupo das principais autoridades certificadoras do mundo.
Ele enfatizou que esse avanço é resultado de um processo contínuo, complexo e desafiador, baseado em aprendizado acumulado e forte base de engenharia, considerada elemento central para garantir segurança e confiabilidade.
Sua fala reforçou que a certificação é um caminho de longo prazo, que exige consistência técnica, estrutura institucional e maturidade do setor para alcançar reconhecimento internacional.
Bruno Batista apresentou a atuação do American Bureau of Shipping – ABS no contexto da certificação e qualidade no setor marítimo e offshore, destacando sua experiência de 20 anos na área e a forte presença da engenharia brasileira na operação da organização no país. Ressaltou que o ABS atua de forma ampla, desde a certificação de equipamentos e materiais industriais até a classificação de embarcações e ativos marítimos, garantindo conformidade técnica e segurança.
Enfatizou que a certificação no setor evolui a partir de aprendizados com incidentes e da constante atualização de regras e normas internacionais, muitas delas estabelecidas pela International Maritime Organization (IMO). Nesse contexto, explicou que os países podem realizar diretamente as inspeções ou delegá-las a entidades classificadoras como o ABS, que representa diversas bandeiras no mundo, incluindo o Brasil.
Por fim, destacou a relevância da certificação como instrumento essencial para assegurar qualidade, confiabilidade e segurança em toda a cadeia produtiva marítima, reforçando o papel das normas e da engenharia na sustentação desses processos.
Marcelo Moraes destacou o papel do Inmetro como órgão central da infraestrutura da qualidade no Brasil, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Enfatizou que a atuação do Instituto abrange metrologia, rastreabilidade de medições, acreditação de organismos e desenvolvimento de regulamentos técnicos.
Ressaltou que o Inmetro tem papel fundamental tanto na certificação compulsória quanto no apoio a esquemas de certificação voluntária, além da supervisão e controle de mercado. Destacou ainda que o órgão está aberto a colaborar com o setor ferroviário, contribuindo na definição de requisitos, na acreditação de laboratórios e organismos certificadores e no fortalecimento da qualidade.
Por fim, reforçou a disposição institucional em apoiar iniciativas como as do IQF, promovendo a evolução da certificação e da infraestrutura da qualidade no país.
Alexandre Xavier apresentou a trajetória do Instituto da Qualidade Automotiva – IQA, criado em 1995 como resposta à abertura de mercado no Brasil, com o objetivo de garantir qualidade em toda a cadeia automotiva — da indústria ao pós-venda. Destacou que o instituto surgiu para mitigar riscos associados à entrada de produtos sem padrão adequado, estruturando-se desde o início como organismo de certificação.
Ressaltou a evolução do IQA ao longo de mais de três décadas, com forte atuação em certificação, qualificação profissional e desenvolvimento do setor, alcançando milhares de empresas, produtos certificados e profissionais treinados. Nesse contexto, destacou a participação institucional de diferentes entidades, afirmando que “o IPT, que orgulhosamente também é fundador e faz parte do conselho diretor do IQA”, evidenciando a integração entre indústria, governo e centros de pesquisa.
Por fim, chamou atenção para os desafios atuais do setor automotivo — como eletrificação, transformação digital, sustentabilidade e a entrada de novos players globais — reforçando que a qualidade e a certificação continuam sendo pilares essenciais para enfrentar esse cenário dinâmico e cada vez mais competitivo. Ao encerrar, reconheceu a importância da iniciativa do IQF e destacou: “Imagino o seu orgulho, Sérgio, em ver esse auditório cheio e o segundo encontro acontecendo”, parabenizando a liderança e a consolidação do Instituto.
O Tenente-Coronel Reder destacou a convergência entre os setores ferroviário e aeronáutico, ressaltando que ambos compartilham os mesmos pilares: transporte de pessoas e cargas com foco em segurança e qualidade. Apresentou a atuação do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, responsável historicamente pelo desenvolvimento, teste e certificação de produtos aeroespaciais no Brasil, e do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial, criado para assegurar certificações com base em normas internacionais e de forma independente.
Destacou que a certificação aeronáutica brasileira se consolidou a partir da necessidade de atender padrões globais, especialmente com a inserção de aeronaves no mercado internacional. Explicou ainda a diferença entre certificação civil e militar: enquanto a aviação civil prioriza exclusivamente a segurança, a certificação militar incorpora também requisitos de desempenho e cumprimento de missão, o que implica a aceitação de riscos operacionais que não seriam admissíveis no ambiente civil.
Por fim, reforçou a importância da certificação como instrumento essencial para garantir confiabilidade, segurança e competitividade, contribuindo para o desenvolvimento tecnológico e industrial do país.
No encerramento do painel, o moderador Antônio Aulicino provocou os participantes com uma questão central: o que impulsiona a certificação em cada setor e quais barreiras precisaram ser superadas para consolidar a cultura da qualidade.
As respostas convergiram para um ponto comum: a certificação nasce da combinação entre segurança, exigências regulatórias, pressão internacional e aprendizado com crises.
Do lado aeroespacial militar, o Tenente-Coronel Reder destacou que a certificação se estrutura em três pilares — projeto, produto e sistema da qualidade — e reforçou seu papel como condição básica para atuação no mercado: “Se algum produto não tiver certificado, você nem senta para conversar.” Ele também lembrou que o maior desafio inicial foi construir os próprios regulamentos e convencer o setor sobre o valor da certificação, algo superado com a demonstração prática de resultados.
No setor automotivo, Alexandre Xavier apontou que a qualidade foi impulsionada principalmente por regulação e abertura de mercado, evoluindo para uma vantagem competitiva: “Não existe componente sem certificação na cadeia produtiva.” Mas destacou entraves relevantes, como o chamado “custo Brasil”, a complexidade de múltiplos requisitos e um dos maiores gargalos atuais: “A qualificação da mão de obra é hoje um dos principais desafios.”
Representando o INMETRO, Marcelo Moraes reforçou o papel da certificação como instrumento de equilíbrio de mercado: “Se você não tem requisitos claros, a qualidade vira custo — e o consumidor acaba escolhendo o mais barato.” Ele ressaltou que o grande desafio está em encontrar o ponto de equilíbrio entre exigência regulatória, viabilidade econômica e desenvolvimento industrial, além de garantir que normas não se tornem barreiras à inovação.
No setor marítimo, Bruno Batista trouxe uma perspectiva histórica, mostrando que a certificação nasceu da necessidade de evitar perdas e tragédias: “O grande objetivo das regras é promover a segurança das pessoas, do meio ambiente e da propriedade.” Ele destacou que muitos avanços surgem após incidentes e que o desafio atual está na velocidade de adaptação às novas exigências, que frequentemente impactam custos e operação.
Já na aviação civil, Nelson Nagamine reforçou o peso das normas internacionais e da legislação, mas ampliou a visão: “A gente faz certificação por demanda da sociedade.” Ele destacou que crises e acidentes foram determinantes para a evolução do sistema e apontou desafios persistentes, como capacitação técnica e alto custo da especialização, especialmente para empresas menores.
Encerrando o painel, o professor Roberto Williams trouxe uma reflexão que sintetiza o momento do setor ferroviário, ainda em construção: “Estamos sobre ombros de gigantes.” A frase traduz o espírito do debate: o setor metroferroviário brasileiro tem a oportunidade de avançar mais rapidamente ao aprender com a experiência acumulada de outros modais, incorporando a certificação como elemento central de qualidade, segurança e competitividade.
Painel 3 – Qualidade e Inovação nos Trilhos

O Painel 3 contou com a participação de: na foto, da esquerda para a direita: Davi Barreto, diretor-presidente da ANTF; Francisco Pierrini, diretor-geral/CEO da Linha Uni; Alexandre Vacchiano de Almeida, diretor técnico do Clube de Engenharia do Brasil, conselheiro do IQF e moderador deste painel; Marco Aurélio Borges Nogueira, gerente de manutenção do Metrô de São Paulo, representando Fábio Siqueira Netto, diretor de operações do Metrô de São Paulo; Michael Sotelo Cerqueira, diretor-presidente da CPTM; e Túlio Henrique de Oliveira Silva, líder de programas prioritários da Embrapii.
Na abertura do Painel 3, o moderador Alexandre Almeida destacou que o debate sobre ferrovias vai além da infraestrutura, posicionando o setor como elemento estratégico para o país: competitividade, logística e desenvolvimento econômico.
Ele ressaltou o momento favorável do Brasil, com novos investimentos e expansão do sistema ferroviário, além do avanço de tecnologias — como a inteligência artificial — que estão sendo incorporadas ao setor. Nesse contexto, reforçou que inovação e qualidade são indissociáveis.
Como provocação inicial ao painel, lançou a questão central: “Como transformar a qualidade em vantagem competitiva por meio da inovação?”
A partir dessa reflexão, convidou os participantes a se apresentarem e a contribuir com suas visões sobre os caminhos para integrar qualidade, tecnologia e desempenho no setor ferroviário.
Davi Barreto destacou a relevância estratégica das ferrovias de carga para o Brasil, enfatizando seu impacto direto na competitividade nacional. Representando a ANTF, que reúne as principais operadoras do país, ressaltou a dimensão do setor: “Cerca de 25% da balança comercial brasileira depende dos nossos trilhos.”
Ele pontuou que as ferrovias transportam praticamente todo o minério exportado e uma parcela significativa do agronegócio, reforçando seu papel estruturante na logística nacional.
Por fim, indicou que sua contribuição ao painel traria uma visão mais ampla e sistêmica do setor, abordando desafios e o posicionamento das ferrovias no desenvolvimento econômico do país.
Francisco Perrini destacou a importância do espaço de diálogo promovido pelo evento como oportunidade para compartilhar experiências, discutir problemas e construir soluções, especialmente diante dos desafios do setor.
Ele chamou atenção para o contexto urbano brasileiro, onde a maior parte da população vive em grandes cidades, o que exige soluções estruturadas para mobilidade: “Tem um caminho muito grande a ser percorrido para enfrentar engarrafamentos, poluição e os desafios das cidades.”
Com uma trajetória de mais de quatro décadas no setor metroferroviário, Perrini reforçou o papel da engenharia, da formação técnica e da integração com instituições como o SENAI e universidades como pilares para avançar em qualidade, inovação e desenvolvimento.
Por fim, ressaltou o valor do debate técnico qualificado como parte do legado a ser construído pelo setor.
Marco Aurélio Nogueira destacou a cultura histórica do Metrô de São Paulo baseada na segurança e na confiabilidade dos sistemas como pilares da operação.
Com trajetória iniciada como técnico e hoje na gestão da manutenção, reforçou que esses princípios sempre orientaram a atuação da companhia e se conectam diretamente com o avanço da certificação no setor: “Nossa prioridade sempre foi a segurança e a confiabilidade dos sistemas.”
Ele ressaltou ainda a importância de fóruns como o encontro do IQF para ampliar o debate sobre certificação e qualidade, valorizando a troca com especialistas e a construção coletiva de soluções para o setor.
Túlio, da Embrapii, apresentou uma visão sobre a evolução do papel da inovação no Brasil, destacando sua transição de um tema mais periférico para um elemento central na estratégia das organizações. Com experiência em engenharia, manufatura e desenvolvimento de produtos, ele reforçou que a inovação deixou de ser vista apenas como custo para se tornar um instrumento de ganho de eficiência, redução de custos e promoção da sustentabilidade.
Atuando na Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial – Embrapii, destacou o papel da instituição no fomento à inovação e na aproximação entre empresas e tecnologia.
Ele ressaltou que o país vive um momento de maior abertura e oportunidade, no qual diferentes setores podem se beneficiar da inovação, não apenas grandes empresas, mas também organizações de menor porte, ampliando a competitividade e a capacidade de transformação da indústria.
O debate continuou e girou em torno da relação entre qualidade operacional e inovação tecnológica e qual delas teria maior impacto nos próximos anos.
Túlio destacou que hoje essas duas dimensões caminham juntas, com a inovação sendo fundamental para ganhos de eficiência, redução de custos e acesso a mecanismos de apoio como a Embrapii, que viabiliza projetos em parceria com centros de pesquisa como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT.
Marco Aurélio, do Metrô de São Paulo, reforçou que a inovação tecnológica já está incorporada à operação, com uso de inteligência artificial, monitoramento de ativos e manutenção assistida, tornando-se essencial para o funcionamento dos sistemas modernos. Para ele, não há mais como dissociar operação de tecnologia.
Davi Barreto, da ANTF, complementou que, no setor ferroviário e metroviário, a eficiência operacional é essencial devido ao alto custo dos ativos, e a inovação é indispensável para garantir competitividade e viabilidade econômica. Ele também destacou a importância da interoperabilidade e do uso mais eficiente da infraestrutura.
Francisco Pierrini, da Linha Uni, trouxe a visão, enfatizando que, embora tecnologia e inovação sejam fundamentais, o fator decisivo é o investimento em pessoas, pois são elas que desenvolvem e operam as soluções. Ele destacou a necessidade de formação de mão de obra qualificada e liderança.
Michael, da CPTM, contribuiu com a ideia de que inovação não se limita à tecnologia e que é preciso avaliar o que realmente é necessário antes de buscar soluções avançadas, considerando restrições de investimento e a realidade dos sistemas existentes.
Por fim, Marco Aurélio, do Metrô de São Paulo, apresentou exemplos práticos de uso de tecnologia, como manutenção preditiva e inteligência artificial, mostrando ganhos expressivos de desempenho, mas reforçando que tudo isso depende da capacitação e do comprometimento das pessoas.
Como uma síntese geral do painel podemos apontar que inovação e qualidade operacional são inseparáveis, sendo a tecnologia um meio para alcançar eficiência, mas com forte dependência da capacitação das pessoas e da gestão adequada dos sistemas.
Painel 4 – Sedimentando o futuro hoje

O Painel 4 contou com a participação de: na foto, da esquerda para a direita: Davi Barreto, diretor-presidente da ANTF; Massimo Giavina, vice-presidente do SIMEFRE e diretor do IQF; Michael Sotelo Cerqueira, diretor-presidente da CPTM, representando Ana Patrizia Lira, diretora-presidente da ANPTrilhos; Jean Pejo, secretário-geral da ALAF/BR, diretor do IQF e moderador deste painel; Marcelo Souza, gerente de engenharia de produtos da GBMX, representando Eduardo Scolari, diretor-presidente e CEO da GBMX; Marco Aurélio Borges Nogueira, gerente de manutenção do Metrô de São Paulo, representando Antonio Júlio Castiglioni Neto, diretor-presidente do Metrô de São Paulo; e Rafael Rombaldi, head de projetos estratégicos da Frasle Mobility.
O painel contou, ainda, com a participação especial do GPAA, por meio de vídeo com mensagem de sua equipe.
Jean Pejo, da ALAF Brasil, abriu o painel saudando os participantes e destacando a relevância do público que permanece engajado no evento, mesmo no horário avançado, o que demonstra o interesse pela qualidade e pelo sistema ferroviário.
Como moderador, ele deu as boas-vindas aos convidados e propôs que cada participante fizesse uma breve apresentação, solicitando também que complementassem informações já apresentadas anteriormente, especialmente no caso de quem já havia participado de sessões anteriores, como forma de enriquecer o debate e evitar repetições.
Michael (CPTM), neste Painel representando a ANPTrilhos, destacou que sua fala deveria ter um olhar mais setorial e estratégico, e não apenas do ponto de vista do operador. Ele ressaltou que o Brasil vive um momento importante de retomada e expansão do setor ferroviário, com maior atenção de estados e do governo federal para o transporte sobre trilhos, tanto para mobilidade urbana quanto para carga.
Ele apontou que, diferentemente de momentos anteriores, hoje existe um movimento mais coordenado e sistêmico, com definição de diretrizes e maior integração entre diferentes níveis de governo, o que dá mais segurança para investimentos e projetos.
Michael também destacou a importância de iniciativas como padronização, certificação e alinhamento tecnológico, que ajudam a evitar erros do passado, quando cada projeto seguia caminhos isolados. Segundo ele, o setor precisa superar barreiras históricas, como diferenças de bitola e sistemas incompatíveis, que dificultaram a integração.
Outro ponto central foi a defesa de um modelo mais integrado entre carga e passageiros, afirmando que “onde tem carga dá para pôr passageiro e onde tem passageiro dá para pôr carga”, com foco na otimização do uso da infraestrutura.
Por fim, ele reforçou que o momento atual exige integração, expansão da malha e aumento da oferta de serviços, deixando discussões mais específicas de segmentação para etapas futuras.
Marcelo Souza, gerente de engenharia da GBMX, destacou sua longa trajetória no setor ferroviário e sua experiência com o desenvolvimento de produtos ao longo de décadas. Ele ressaltou que o mercado brasileiro enfrenta atualmente um cenário de alta capacidade ociosa na produção de vagões, o que impacta toda a cadeia produtiva, levando empresas a dificuldades e até encerramento de atividades.
Como ponto positivo, apontou o movimento recente de renovação de concessões e novas autorizações, que tende a trazer novo fôlego para o setor. Paralelamente, destacou a importância da atuação institucional e política, incluindo iniciativas como a frente parlamentar ferroviária, para fortalecer o setor como uma estratégia de Estado, e não apenas de governo.
Marcelo também reforçou a meta de ampliar a participação do modal ferroviário no Brasil, dos atuais cerca de 21% para 40% até 2035, o que exigirá crescimento estruturado e consistente.
Nesse contexto, enfatizou que o avanço do setor dependerá diretamente de certificações, qualificação e bases sólidas de qualidade, como forma de garantir sustentabilidade e destravar o potencial ferroviário brasileiro.
Marco Aurélio, do Metrô de São Paulo, destacou que o setor metroferroviário vive um momento de forte expansão em São Paulo, com diversos projetos em andamento e planejamento de novas linhas, como as expansões das linhas 2, 15, 17, 19, 20 e 22, além de iniciativas como a TIC Trens e o Trem Intercidades. Esse cenário reforça a necessidade de discutir qualidade, certificação e padronização.
Ele ressaltou que o debate sobre o Instituto da Qualidade Ferroviária – IQF é especialmente oportuno, pois o crescimento do sistema exige maior segurança, confiabilidade e qualificação de fornecedores. Como exemplo, citou a experiência com um fornecedor nacional de componentes, que, após ser homologado, conseguiu competir em condições mais favoráveis, evidenciando o papel da certificação como diferencial.
Marco Aurélio também apontou desafios importantes, como a dependência de componentes importados e a dificuldade de ampliar a produção nacional devido ao chamado “custo Brasil”. Nesse contexto, defendeu que a certificação de qualidade pode ser um instrumento estratégico para fortalecer a indústria local e incentivar a produção nacional.
Por fim, reforçou que o avanço do setor depende de qualidade estruturada e certificação como critérios essenciais, especialmente em um cenário de expansão e maior demanda por soluções ferroviárias no país.
Rafael, da Frasle Mobility, destacou sua experiência de 25 anos na indústria e a atuação da empresa no setor ferroviário, ressaltando o papel estratégico da ferrovia no desenvolvimento do Brasil, tanto para carga quanto para passageiros. Ele observou que há um amplo reconhecimento da importância do modal ferroviário, fruto de investimentos, atuação institucional e maior integração entre indústria, operadores e entidades do setor.
Segundo ele, o momento é favorável para consolidar um planejamento de longo prazo que torne o crescimento ferroviário mais sustentável e consistente. Também destacou a força da engenharia brasileira, com centros de excelência e profissionais reconhecidos internacionalmente, reforçando a capacidade de desenvolvimento local.
Rafael enfatizou a importância de fortalecer a indústria ferroviária nacional, buscando ampliar a participação do modal e complementar outros meios de transporte, em vez de competir com eles. Ele também ressaltou que o avanço do setor depende de alinhamento em padrões de qualidade e certificação, garantindo que todos os atores operem no mesmo nível de exigência.
Por fim, destacou que a discussão sobre custos deve considerar o custo total de operação (TCO), defendendo que nem sempre o menor custo inicial é o melhor, e que soluções mais duráveis e eficientes trazem melhores resultados ao longo do tempo.
Continuando o debate, Jean Pejo, moderador deste painel, destacou a importância de incluir o transporte de cargas no debate deste painel, ampliando a discussão para além do transporte de passageiros. Em seguida, aprofundou a relevância da certificação no setor ferroviário, ressaltando que ela não se limita à indústria, mas começa já na fase de projeto (básico e executivo) e se estende à construção e à manutenção da infraestrutura.
Ele enfatizou que, embora a certificação tenha um custo, ela deve ser entendida como um investimento, trazendo ganhos como redução de riscos, maior segurança e benefícios em seguros, além de fortalecer a análise de risco em diferentes dimensões (engenharia, ambiental e patrimonial).
Jean Pejo também sugeriu ampliar o debate incluindo seguradoras e setores mais maduros em certificação, como o aéreo, automotivo e naval, que possuem práticas mais consolidadas e maior rigor devido à forte inserção internacional.
O moderador destacou ainda as oportunidades de integração ferroviária, especialmente em regiões de fronteira e no contexto de novos empreendimentos, além do potencial de projetos como corredores bioceânicos e a integração com países vizinhos e com o mercado europeu.
Por fim, reforçou que o atual momento é altamente favorável para o avanço da certificação de qualidade, especialmente diante de novos acordos internacionais e da necessidade de garantir padrões elevados para exportação e importação, consolidando a certificação como elemento essencial para o desenvolvimento sustentável do setor ferroviário.
Davi Barreto, da ANTF, apresentou um panorama otimista do setor ferroviário de carga no Brasil, destacando que o país vive um ciclo de forte crescimento de investimentos, com valores históricos recentes e projeções elevadas para os próximos anos. Segundo ele, esse avanço está diretamente relacionado à modernização e renovação dos contratos de concessão, que têm incentivado maior investimento por parte das operadoras.
Ele ressaltou que, apesar do cenário positivo, o principal desafio é manter a continuidade desses investimentos ao longo do tempo, evitando oscilações no setor. Para isso, destacou a importância de novas concessões, projetos estruturados e apoio financeiro, incluindo iniciativas governamentais e possíveis novas fontes de incentivo.
Davi também observou que o setor possui empresas sólidas e capacidade de expansão, mas ainda enfrenta desafios para atrair novos players e ampliar a participação do modal ferroviário na matriz de transportes. Nesse sentido, apontou que o crescimento depende de planejamento, financiamento e estabilidade regulatória.
Um ponto central de sua fala foi a importância da certificação e da padronização, que ajudam a reduzir riscos, diminuir a assimetria de informação e aumentar a confiança de novos investidores e operadores. Ele destacou que mecanismos de certificação funcionam como garantias de qualidade e segurança, podendo inclusive orientar níveis mais exigentes de regulação.
Por fim, reforçou que o setor vive um momento promissor, com potencial de crescimento relevante, e que o avanço da ferrovia no Brasil está alinhado com uma agenda estratégica de desenvolvimento econômico para os próximos anos.
No ultimo bate-bola de pergunta e respostas, Jean Pejo, moderador do painel 4, destacou o avanço das articulações institucionais do setor ferroviário junto a entidades como o SIMEFRE, Abifer e ANTF, ressaltando a atuação da frente parlamentar metroferroviária em Brasília. Ele mencionou como exemplo a recente mobilização que contribuiu para evitar o veto ao setor ferroviário do Fundo Clima, além de iniciativas de financiamento em andamento, como as debêntures, e o apoio do BNDES a programas de renovação, como o Renova Trem.”
Segundo ele, há uma movimentação positiva do governo federal, com maior participação no financiamento de projetos, complementando o investimento privado, sinal de que o setor está avançando, ainda que de forma gradual.
Jean lançou uma provocação aos painelistas: refletir sobre as vantagens e benefícios da certificação da qualidade, tanto para as empresas quanto para o setor como um todo, destacando a importância desse tema para garantir segurança, competitividade e desenvolvimento sustentável.
Rafael Rombaldi, da Fras-le Mobility, destacou que, por se tratar de produtos de segurança, a certificação deveria ser uma condição obrigatória para entrada no mercado. No desenvolvimento de seus produtos, a empresa segue normas como AR para carga e UIC para passageiros, realizando testes em laboratório antes da aplicação em campo. Para ele, a certificação garante segurança tanto para quem produz quanto para quem utiliza, assegurando que o produto cumpra “os requisitos básicos e mínimos de segurança e qualidade”, especialmente em componentes críticos como freios.
Marco Aurélio, Metrô de São Paulo, reforçou que “segurança não se negocia” e que certificação traz ganhos diretos, inclusive com impacto em seguros, que podem ficar mais baratos. Destacou que a certificação aplicada a processos e sistemas, como o monitoramento de rodas por perfilômetro, pode até aumentar a vida útil dos ativos e melhorar a manutenção. Para ele, a certificação deve estar presente como instrumento de melhoria contínua e garantia de segurança.
Marcelo Souza da GBMX, ressaltou a importância da certificação para garantir disponibilidade e confiabilidade dos ativos, evitando paradas causadas por falhas de qualidade. Defendeu que a certificação ajuda a nivelar o mercado, elevando o padrão mínimo e permitindo que a competitividade se dê por desempenho acima desse nível. Também destacou o desafio da renovação da frota, mencionando que grande parte dos vagões brasileiros tem mais de 30, 50 e até 65 anos, o que reforça a necessidade de certificação para garantir segurança e eficiência. Além disso, apontou ganhos relevantes com a renovação, como redução de emissões e aumento de capacidade logística.
Michael Sotelo, da CPTM, enfatizou que certificação não deve ser vista como custo, mas como investimento estratégico. Segundo ele, ao melhorar a qualidade da cadeia, há aumento de disponibilidade e redução de custos no longo prazo. Destacou que a certificação deve ser incorporada desde o início dos projetos: “a certificação não pode vir só lá no fundo”, mas desde o planejamento. Para ele, isso garante qualidade do ativo entregue e recebido, além de maior eficiência na aplicação dos recursos públicos.
Massimo Giavina, vice-presidente do SIMEFRE, fez uma crítica contundente à falta de exigência de certificação em contratos, destacando que a legislação (Lei 14.133) já prevê qualificação, mas nem sempre é aplicada na prática. Questionou a ausência de critérios técnicos rigorosos em aquisições, especialmente em materiais importados, defendendo que o país precisa evitar “comprar sem qualificação”.
Alertou para os riscos de falta de controle de qualidade, citando problemas históricos e defendendo que certificação deve ser exigida pelos operadores e pelo poder público. Ressaltou que o setor ferroviário é estratégico para o país, tanto para carga quanto para passageiros, e que a certificação é essencial para garantir segurança, confiabilidade e desenvolvimento industrial nacional.
Davi Barreto, diretor-presidente da ANTF, reforçou que a certificação é fundamental para reduzir riscos, aumentar a confiança e viabilizar a expansão do setor, especialmente em um cenário de maior compartilhamento de infraestrutura e entrada de novos operadores.
Para ele, é essencial estabelecer níveis claros de qualidade e segurança, evitando falhas operacionais e garantindo eficiência no sistema. Destacou que a certificação também pode funcionar como barreira necessária, protegendo o sistema ferroviário e assegurando sua integridade e performance.
Jean Pejo, moderador, encerra o painel, sugerindo uma “lição de casa” para os participantes: refletir e responder como o IQF pode apoiar as atividades de suas empresas e do setor, reforçando o papel do Instituto como agente de desenvolvimento da qualidade no sistema metroferroviário.
Agradeceu a participação dos painelistas e ressaltou o alto nível das discussões. Também parabenizou a organização e reforçou a importância da atuação conjunta entre instituições.
Além disso, mencionou o avanço de um termo de cooperação técnica entre o IQF e a ALAF (Associação Latino-Americana de Ferrovias), destacando a relevância estratégica desse movimento diante do acordo Mercosul–União Europeia e do aumento esperado no fluxo de produção e comércio entre o Brasil, países vizinhos e o mercado europeu.
Enfatizou ainda que, no cenário sul-americano, o Brasil é o único país com indústria ferroviária estruturada, o que abre uma oportunidade para maior protagonismo regional por meio da certificação da qualidade, especialmente em países que estão ampliando investimentos, como Peru, Argentina e Bolívia.
Por fim, reforçou o convite para que todos respondam à provocação proposta, encerrando com o espírito de engajamento e colaboração entre os atores do setor.
Encerramento – 2º Encontro IQF

Sérgio Inácio Ferreira, presidente do IQF, agradeceu à equipe do IPT pelo apoio e destacou que o avanço do setor ferroviário depende da atuação conjunta de todos os agentes — operadoras, fabricantes, governo e demais stakeholders. Ressaltou que iniciativas isoladas não são suficientes e que é necessário engajamento coletivo para que o processo de certificação avance no Brasil.
Apontou que outros setores, como o naval, aeronáutico e automotivo, já consolidaram a certificação como requisito essencial, e defendeu que o setor ferroviário precisa seguir o mesmo caminho, especialmente por envolver alto grau de segurança. Questionou a ausência de um sistema estruturado de certificação no setor e afirmou que “nada justifica” essa lacuna.
Destacou os avanços já conquistados pelo IQF em curto período de tempo, com o desenvolvimento de normas e comitês técnicos, mas reforçou que o processo só terá continuidade com o envolvimento ativo de todos os participantes. Também ressaltou a importância do apoio do poder público, com políticas de longo prazo e estabilidade institucional.
Enfatizou ainda o potencial de evolução do sistema de certificação ferroviária no Brasil, com expansão para diferentes dimensões — produto, sistema e mão de obra — e mencionou a importância de se alcançar um nível de maturidade semelhante ao de outros setores.
Encerrando, reforçou a mensagem central — “segurança em primeiro lugar e qualidade sempre” — como síntese do compromisso que deve orientar o setor metroferroviário, em linha com princípios já consolidados em segmentos como o da Embraer, e conclamou todos a se engajarem no processo de construção da certificação no setor.
Observações:
O vídeo do 2º Encontro IQF pode ser assistido na íntegra no canal do YouTube.
As fotos do evento podem ser acessadas neste link. (crédito: IPT)



