Qualidade na via permanente exige integração entre serviços, materiais e rastreabilidade — tema que Márcio Martins, Renato Melo, Marrariste de Souza e Nayara Sarracine exploram ao destacar o papel da certificação na confiabilidade ferroviária.
Por: Márcio Martins, Renato Melo, Marrariste de Souza e Nayara Sarracine
Introdução
A gestão da qualidade na via permanente exige uma abordagem integrada entre execução de serviços, controle de materiais e rastreabilidade documental. Em uma malha extensa com desafios de logística, conectividade e múltiplas frentes de obra, a experiência relatada na Rumo mostra como processos de certificação, auditorias e registros consistentes elevam a confiabilidade do ativo ferroviário e reduzem retrabalhos. Este artigo consolida os principais temas desenvolvidos e enfatiza a necessidade de certificação para fornecedores de materiais de Via Permanente.
Contexto operacional: O desafio em malhas extensas.
O sistema Norte da malha da RUMO se estende desde Santos-SP, atravessando todo estado de São Paulo, Mato Grosso do Sul e chegando em Rondonópolis no estado do Mato Grosso, assim como também possui a concessão da Ferrovia Norte-Sul (FNS) entre São Paulo, Goiás chegando em Porto Nacional no Tocantins. Trechos de alta demanda, formando um dos mais importantes corredores de exportação de commodities. Além de possuir a concessão dos Ramais Colômbia, Panorama e a Malha Oeste, o qual parte destes estão em recuperação/reativação.

A operação ferroviária impõe uma elevada complexidade para sua manutenção, visto que além de centenas de quilômetros e uma saturação acima de 80% a ferrovia impõe obstáculos peculiares:
- Distribuição de equipes e materiais em regiões com pouca infraestrutura e acessos precários.
- Custos elevados de frete e risco de variação na qualidade por limitações de localidade do fornecedor.
- Concorrência interna por materiais entre obras de expansão/modernização e manutenção.
- Variabilidade de Capacitação de equipes de manutenção,
Nesse cenário, qualidade não pode depender apenas de inspeções pontuais; precisa ser um sistema com requisitos claros, rotinas de verificação e rastreabilidade.
2. Qualidade de Serviços:
A confiabilidade da via permanente está intimamente ligada a qualidade na execução de serviços de manutenção. Devido ao grande volume de pontos de manutenção é necessária uma alta quantidade de equipes que espalhadas pelo trecho executam diversos serviços, muitos deles de forma “autônoma”, ou seja, sem a necessidade de fiscalização ou acompanhamento próprio durante a execução do serviço. Para garantir o cumprimento dos procedimentos, além de treinamentos, as equipes são constantemente auditadas pelos líderes de trecho e pela fiscalização de Qualidade. Onde realizam o acompanhamento e aferem a qualidade da execução do serviço
2.1. Controle durante a execução
De acordo com o serviço a ser executado a fiscalização de Qualidade realiza o acompanhamento da execução do serviço com autonomia suficiente para identificar não conformidades e tratar de imediato. Estes acompanhamentos são relatados em aplicativos, computado e relatado para a empreiteira, garantindo assim um processo de melhoria contínua no que tange a execução do serviço de fato. Assim como também, para garantir a segurança ferroviária, mesmo sem conclusão do serviço, o controle ocorre por meio de boletins diários de qualidade, reforçando conformidade com requisitos técnicos e, principalmente, de segurança.
2.2. Auditoria após a conclusão
Ao final, a ordem de serviço passa por auditoria em campo o qual verifica:
- Totalidade do serviço descriminado;
- geometria da via;
- acabamento e condições de entrega;
- conformidade com padrões e critérios estabelecidos.
Serviços não conformes não são encerrados e retornam para correção. Ao final para gestão de performance, as quantidades de não conformidades, quantidade de serviços auditados e a produtividade das turmas, formam um ranking de pontuação e também discriminado os pontos de vulnerabilidade das turmas para uma gestão de melhoria pela empreiteira.
3. Qualidade de Materiais
O processo de controle de materiais, em muitos contextos, é mais recente do que o de serviços e precisa lidar com grandes volumes e ampla variedade de itens, além da dispersão geográfica dos fornecedores. O objetivo aqui é manter o ciclo completo dentro do padrão de qualidade, e não observar os materiais apenas no recebimento, passando então a ter o acompanhamento da qualidade desde a produção até a aplicação do material. Os principais estão enfatizados quatro grupos principais, sendo eles:
3.1. Dormentes
a) Dormentes de madeira
Os Dormentes são um item de segurança da via permanente pois garante a fixação do trilho, preservam a geometria e suportam esforços cíclicos. Nas experiências discutidas, o foco recaiu especialmente sobre o eucalipto, que é amplamente utilizado e, ao mesmo tempo, mais vulnerável a variações de matéria-prima, falhas de processo e até desvios de conduta na cadeia de fornecimento.

Na prática, dormentes com densidade inadequada, rachaduras, defeitos internos ou tratamento preservativo deficiente podem deteriorar muito cedo, encurtando a vida útil e aumentando risco operacional. Isso se traduz em intervenções frequentes, aumento de custo e sobrecarga de logística e equipes, especialmente em malhas longas e com restrições de acesso.

Os pontos críticos relatados vão além da variabilidade natural da madeira e entram em falhas sistêmicas:
- Rejeitos “realocados” no mercado: foi destacado como problema grave a prática de alguns fornecedores destinarem a outros clientes dormentes rejeitados em inspeções anteriores, sem garantir novo ciclo de controle. Isso cria um fluxo de material degradado que passa a depender da capacidade de cada operadora barrar o lote.
- Assimetria de fiscalização: a madeira de lei tende a ter controles mais rígidos por pressão e fiscalização ambiental, enquanto o eucalipto pode ficar “esquecido”, apesar de ser a maior matriz de aplicação e disponibilidade.
- Variabilidade de espécie e densidade: existem muitas espécies de eucalipto e nem todas são adequadas para uso ferroviário, o que exige critérios claros e verificação consistente de propriedades.
- Falsificação de fiscalização: Caso recorrente e crítico: falsificação de carimbos e simulação de inspeção pré-tratamento. Do ponto de vista da Qualidade, esse tipo de ocorrência destrói o fundamento do sistema, porque compromete a confiabilidade dos registros, enfraquece a rastreabilidade e dificulta a análise de causa raiz quando ocorre falha em campo.
Por isso, a discussão não se limita a “especificação técnica”, mas inclui governança, auditoria e integridade de dados.
As experiências e ações que elevaram a qualidade percebida, após a implementação do processo de qualidade mais estruturado, os dormentes recebidos passaram a apresentar qualidade muito superior e promoveram técnicas desenvolvidas pelos fornecedores para melhoria no produto entregue. Isso sugere que o ganho veio de atuar no sistema, não apenas no produto final.

As experiências discutidas convergem para uma ideia central: qualidade de dormente de madeira é segurança e segurança exige um sistema integrado de prevenção no fornecedor, barreiras eficazes no recebimento e rastreabilidade auditável. Quando esse sistema é implementado, os resultados aparecem na prática, com melhoria perceptível da qualidade recebida e redução do risco de falhas precoces na via permanente.
Para Márcio Martins uma recomendação é que o IQF implemente certificação obrigatória para fornecedores de dormentes de eucalipto. A justificativa é sistêmica: padroniza o mínimo aceitável, reduz espaço para “desova” de rejeitos e eleva a confiança do setor em escala.
Para ser efetiva, essa certificação precisa avaliar processo e produto, incluindo:
- controle de espécie e densidade,
- rastreabilidade da origem e do tratamento,
- plano de inspeção e ensaios,
- auditabilidade e integridade dos registros,
- mecanismos de prevenção e detecção de fraude.
Com a redução de florestas adultas (20+ anos) e disputa do eucalipto com outros setores (Celulose e Biomassa), deixam um alerta ao mercado e pode haver pressão por matéria-prima e aumento de variabilidade. Isso reforça a necessidade de certificação e rastreabilidade para sustentar desempenho e vida útil ao longo do tempo.
b) Dormentes de concretoDormentes de concreto são projetados para ciclos longos de serviço e, por isso, costumam dar uma falsa sensação de “material resolvido”. Nas discussões, porém, ficou claro que a durabilidade depende menos do projeto nominal e mais da disciplina de processo na fabricação e da rastreabilidade ao longo do ciclo de vida. Quando esses pilares falham, os defeitos podem aparecer tardiamente, próximo ao fim de vida esperado, ou de forma precoce, encurtando drasticamente a longevidade em campo.

Um ponto de destaque é o comportamento de falha tardia: dormentes que trabalham por anos e passam a apresentar defeitos quando já se espera desempenho estável. Na prática, isso eleva risco e custo porque:
- a substituição ocorre em massa, normalmente sob restrições de janela e logística;
- A qualidade tende a ser melhor quando há fiscalização e controles bem definidos, mas existe risco de degradação quando a demanda incentiva “acelerar” produção e camuflar desvios;
- Variáveis críticas incluem temperatura de cura, traço de concreto, aditivos e controle tecnológico;
- a investigação é difícil quando não há histórico confiável de produção;
- a resposta tende a ser reengenharia e intervenção corretiva cara;

Com um alto volume de produção e poucos fornecedores no mercado ferroviário brasileiro, a disputa por disponibilidade de fabricação provocam a inovação e “criatividade” dos fornecedores em conseguir atender a tempo o anseio do mercado ferroviário. Dentro desse cenário o acompanhamento da Qualidade se faz essencial, mas dentro das experiencias da RUMO a rastreabilidade é primordial para intervenções ou análises futuras. Nas experiências mencionadas, os defeitos foram associados a falta de controle do processo. As causas recorrentes incluem:
- Ausência de memória de cálculo e documentação do lote.
- Falta de registro de temperatura de cura, que impacta hidratação, retração e desempenho ao longo do tempo.
- Desconhecimento do traço e variações de materiais constituintes sem governança técnica.
- Controle insuficiente de aditivos e da sua dosagem, com efeito direto na durabilidade.
- Risco de DEF (formação tardia de etringita) em condições propícias, apontado como um tipo de defeito associado à falta de controle.
O resultado prático é o pior cenário para uma ferrovia: um componente projetado para 20 a 30 anos apresentar vida útil muito inferior.


Dormentes de concreto não são apenas um item de alto volume, mas um componente de confiabilidade sistêmica. A durabilidade real depende de controle de processo, rastreabilidade e certificação que funcione mesmo sob pressão de demanda. Quando esses elementos estão presentes, a ferrovia reduz a chance de falhas tardias, melhora a capacidade de diagnóstico e evita que problemas de fabricação se transformem em crises operacionais anos depois.
3.2. Peças de AMV (Aparelhos de Mudança de Via)
Os AMVs possuem componentes críticos que concentram complexidade mecânica e geométrica. Por isso, pequenos desvios de fabricação, montagem ou manutenção podem gerar impactos desproporcionais em segurança, conforto e confiabilidade operacional. O processo de qualidade em peças de AMV apareceu como um exemplo de cadeia mais madura, especialmente por sair do fornecedor com documentação e inspeções já bem estruturadas.

Em AMV, a qualidade não pode depender só do recebimento. O desempenho resulta da soma de:
- Projeto e especificação adequados ao cenário operacional.
- Fabricação controlada de peças críticas e tolerâncias.
- Inspeções em fábrica antes do envio.
Rastreabilidade para investigar anomalias e prevenir reincidências.

O processo de Qualidade em AMV se destaca como um caso em que certificação, inspeção em fábrica e documentação formam uma barreira robusta contra não conformidades. Quando esse modelo é combinado com rastreabilidade consistente até a instalação e a manutenção, o resultado é um componente crítico com baixa incidência de problemas pós-implantação e maior capacidade de diagnóstico quando algo foge do esperado.
3.3. Lastro (pedra britada)
Lastro (pedra britada) é um material de aparente simplicidade, mas com efeito direto na estabilidade da superestrutura, na drenagem e no isolamento de circuitos. Por isso, pequenas variações de produção e manuseio podem gerar consequências relevantes em desempenho e manutenção. O lastro aparece como um dos itens em que um processo rigoroso de qualidade é indispensável e, ao mesmo tempo, desafiador por depender de pedreiras que atendem múltiplos mercados.

Apesar do baixo custo unitário, o lastro é adquirido em volumes muito altos, o que o torna um dos materiais mais relevantes em custo total e impacto operacional. Além disso, é ele sustenta e estabiliza a geometria da via, garante drenagem e reduz degradação por água e finos e contribui para o isolamento elétrico de sistemas de sinalização. Isso explica por que desvios de qualidade se traduzem rapidamente em aumento de manutenção e perda de desempenho.
Um ponto central é que as pedreiras concorrem diretamente com a construção civil e outros segmentos, como o Rodoviário. Esse contexto cria riscos típicos:
- ajustes de britagem e peneiramento para atender demanda do mercado “civil”,
- mudanças de produto ao longo do tempo sem governança específica para ferrovia,
- priorização de volume e velocidade de produção em detrimento de consistência granulométrica.
Na prática, a ferrovia pode receber um material “parecido”, mas fora da curva exigida. O lastro ferroviário tem requisitos próprios e não deve ser tratado como uma brita genérica. A NBR 5564 serve como referência normativa para o material. O controle precisa garantir, de forma consistente:
- distribuição granulométrica dentro da faixa,
- material livre de contaminação (solo, finos, orgânicos, etc),
- repetibilidade entre lotes.

Qualidade de lastro é, na prática, confiabilidade e custo de manutenção. As discussões reforçaram que o caminho mais consistente combina norma, controle granulométrico, barreiras contra contaminação e um modelo de certificação auditável que reduza a variabilidade do fornecimento e aumente a confiança do setor no material aplicado em via permanente.
3.4. Trilhos, consumíveis de solda e materiais miúdos
Para trilhos, consumíveis e itens miúdos (telas, parafusos, grampos, placas etc.), o controle tende a ser amostral, frequentemente apoiado em certificados do fornecedor — com menor incidência de desvios, mas ainda exigindo verificação e registro. Para esses materiais, os desvios são em taxas inferiores e possuem um controle de qualidade interna nos seus fornecedores, o que garantem um processo mais confiável e rastreável.
4. Qualidade em Obras e entrega para manutenção.
A entrega de uma obra ferroviária para a operação e a manutenção demanda uma atenção em especial, quando pendências, desvios e lacunas de documentação deixam de ser “problema da obra” e passam a virar falha em campo. A qualidade na entrega não é apenas uma vistoria final, mas um processo de fechamento que integra inspeção técnica, rastreabilidade de materiais e conformidade com requisitos de segurança.
A lógica é simples: se a obra entra em operação com pendências, o custo e o risco se multiplicam. Isso acontece porque as correções passam a depender de janelas operacionais e restrições de tráfego, o diagnóstico fica mais difícil sem registro completo do que foi executado, a manutenção herda anomalias sem ter contexto e evidências para tratar causa raiz.
Por isso, a entrega precisa funcionar como uma barreira robusta entre construção e manutenção. A inspeção de aceitação deve confirmar, com evidências, que o ativo foi entregue em condição adequada para operação e manutenção. O conceito de “diagnóstico” na entrega consiste em consolidar a condição real do que foi executado, registrar os resultados de verificação e assegurar que não existam pendências ocultas que se transformem em falhas em campo.
A robustez da entrega é consequência direta do controle aplicado durante a execução. A presença de equipe de qualidade acompanhando etapas críticas reduz o risco de acumular não conformidades ao final e eleva a previsibilidade do fechamento, pois previne desvios antes que se cristalizem no produto final, registra evidências quando o processo ocorre, diminui retrabalho e reduz a variabilidade na aceitação.
Em uma entrega madura, a documentação é um produto do projeto e deve ser tratada como um entregável técnico. Relatórios mensais e finais, registros de inspeção, resultados de ensaios e evidências de conformidade precisam ser organizados com objetivo claro: permitir que a manutenção compreenda o que foi entregue, como foi verificado e quais limites e condições foram adotados.
O controle de qualidade na entrega de obras ferroviárias é uma barreira de confiabilidade que conecta construção e manutenção. A efetividade desse processo depende de inspeção de aceitação bem definida, acompanhamento de qualidade ao longo da execução e documentação auditável com rastreabilidade suficiente para sustentar operação segura, diagnóstico rápido e melhoria contínua ao longo do ciclo de vida do ativo.
Conclusão
A confiabilidade da via permanente não depende apenas de um bom projeto ou uma boa manutenção: ela é construída diariamente por meio de processos, disciplina de execução, controle de materiais e rastreabilidade. A experiência discutida evidencia que a certificação de fornecedores — quando conectada a auditorias e documentação completa — aumenta segurança, reduz risco operacional e protege o investimento ao longo do ciclo de vida. Em síntese, podemos seguir o lema da Embraer: segurança primeiro, qualidade sempre.
AUTORES:
Márcio Henrique Tavares Martins
Pós-graduado pelo IME em Especialização de Transporte Ferroviário de Cargas, MBA em Engenharia de Negócios pela Uneed, Engenheiro de Controle e Automação pela Anhanguera e Técnico em Sistemas Mecânicos de Transportes sobre Trilhos pelo SENAI/CPTM. Atualmente está como Coordenador de Engenharia de Via Permanente da RUMO- Malha Norte.
Email: eng_marcio.martins@outlook.com | marcio.martins@rumolog.com
Renato Martin Melo
Engenheiro Industrial Madeireiro pela UNESP, pós-graduado em Engenharia Ferroviária pelo IPOG e certificado em Green Belt Lean Six Sigma pela Brasil Open Badge. Experiência como Coordenador de Manutenção de Via Permanente Pleno (Rumo), Coordenador de Planejamento Pleno (Rumo) e Coordenador de Qualidade e Controle Tecnológico de Materiais (Rumo).
Email: melo.renato@outlook.com | renato.melo@rumolog.com
Nayara Herrera Sarracine
Engenheira Civil pela Universidade Católica de Santos e Pós-graduada em Engenharia da Qualidade e Melhoria de Processos pela Anhanguera. Analista de Planejamento com viés em controle de qualidade de materiais de superestrutura na Rumo Logística.
E-mail: nayara.sarracine@rumolog.com
Marrariste Ferreira de Souza
Pós-graduado em Engenharia Ferroviária pela UniALL/Positivo, pós-graduado em Engenharia de Segurança do trabalho pela Uniasselvi e Engenheiro de Minas pela Federal de Goiás. Coordenador de Qualidade de Serviços de Via Permanente na RUMO.
Email: marrariste.souza@rumolog.com
