Neste colóquio, Jean Pejo e o Prof. Roberto Willians de Santana discutem como integração regional, qualidade e articulação institucional podem redesenhar o futuro ferroviário na América Latina — com a dimensão humana no centro dessa transformação.
Perspectivas de um Setor em Movimento
Em um cenário de profunda reestruturação logística e busca por eficiência energética, o setor ferroviário retoma seu protagonismo na agenda econômica da América Latina. Para debater os vetores dessa transformação, reunimos duas vozes fundamentais: o Prof. Roberto Willians de Santana, Membro do NDF – MG e do IQF e expoente em projetos ferroviários e da educação técnica, e Jean Pejo, Secretário Geral da ALAF (Associação Latino-americana de Ferrocarriles), uma das grandes lideranças no segmento em toda América Latina e Membro do IQF.
O encontro, pautado pela sofisticação técnica e visão de longo prazo, explora as possíveis sinergias entre IQF e o Ministério dos Transportes, a ANTT e o BNDES, além do papel vital da normalização técnica via ABNT/SIMEFRE e ABIFER. O que se segue é um diálogo de alto nível sobre como as parcerias estratégicas e a qualificação de ativos podem consolidar um novo paradigma para os trilhos no continente.
Abertura e Bastidores Estratégicos
Jean Pejo: Tudo em ordem, grande mestre?
Roberto Willians: Tudo bem, meu amigo.
Jean Pejo: A reunião no BNDES foi extremamente produtiva, não acha?
Roberto Willians: De fato, embora eu não tenha podido comparecer pessoalmente. Estou utilizando a transcrição para nossa conversa, garantindo que nenhum detalhe se que tenhamos um registro fiel. Mas diga-me, como você está para a nossa agenda? Segundo nosso caro Presidente, Sérgio, seguimos a linha discutida; agora o foco volta-se para a ANTT e para o Ministério dos Transportes.
Jean Pejo: Precisamos intensificar esse trabalho institucional e político. Inclusive, nossa colega Sandra do GPAA, assumiu a Secretaria de Transporte no Distrito Federal. É um desafio vultoso, dada a natureza da capital federal, mas ela conduzirá com excelência.
Roberto Willians: Excelente notícia. Desejo-lhe pleno sucesso. Mas voltando ao nosso “bate-bola”. Vamos tratar das parcerias e do intercâmbio técnico-científico.
A Integração ALAF-IQF e a Retomada Ferroviária
Roberto Willians: Iniciemos pela parceria entre a ALAF (Associação Latino-Americana de Ferrovias) e o IQF (Instituto da Qualidade Ferroviária). Como você, na condição de liderança e articulador, avalia o papel da capilaridade regional de uma entidade somada à expertise certificadora da outra? Como essa sinergia altera a rotina das operadoras na América Latina?
Jean Pejo: É fundamental pontuar que a integração entre o IQF e a ALAF será o pilar da retomada do transporte ferroviário internacional no Brasil. Infelizmente, nos últimos cinco anos, as conexões de fronteira foram interrompidas por decisões empresariais pós-COVID, e não por falta de apoio político.
O IQF detém a atribuição do desenvolvimento tecnológico e da certificação acadêmica. A ALAF, por sua vez, foca na integração latino-americana, no aprimoramento do conhecimento e na aprovação de normas. Quando unimos esses conhecimentos, geramos uma sinergia ímpar para a normalização e a qualidade do serviço. Nosso objetivo final é a melhoria da qualidade do emprego e da vida das populações latino-americanas. Mas e do seu lado, Roberto? Como a integração do IQF com o convênio assinado com o NDF (Núcleo de Desenvolvimento Tecnológico Ferroviário de Minas) trará benefícios à sociedade?
O Papel do NDF-MG e a Formação do Engenheiro do “Trecho”
Roberto Willians: Essa parceria é um processo contínuo que iniciamos em 2024, visando linhas de financiamento para laboratórios de ensaios e testes. O foco é a conexão intrínseca com a academia — COPPE-UFRJ, USP, UNICAMP e agora a Universidade Federal de Santa Catarina, dentre outras. Inovamos ao unir procedimentos normativos à pesquisa e inovação.
Nosso projeto com o IQF visa construir comitês de certificação de cursos e profissionais. Estamos lançando cursos que conectam a teoria à prática do setor, algo raro nas especializações tradicionais. Queremos que o engenheiro — seja ele mecânico, elétrico ou de computação — compreenda a engenharia ferroviária como uma combinação sistêmica. Começaremos com o curso de Gerenciamento de Manutenção, está com ~150 horas dedicadas à ferrovia, servindo como balizador de qualidade para a formação profissional no setor.
Jean Pejo: Iniciativa louvável. Precisamos trazer o engenheiro de volta ao setor técnico, revertendo a tendência dos últimos dez anos, onde os formandos migram para os setores financeiro e administrativo. Se a engenharia em geral sofre com isso, a ferroviária sofre ainda mais. O papel do IQF e do NDF será crucial para a interoperabilidade da malha nacional e regional.
Padronização, Comércio Exterior e o Acordo com a União Europeia
Roberto Willians: Exatamente. Nossos comitês unem pesquisadores de ponta e profissionais de campo. Pergunto-lhe: como essa padronização e harmonização de normas atua como pilar para o livre comércio e como referência de qualidade em nossa relação com blocos como a União Europeia, especialmente com os novos acordos vigentes?
Jean Pejo: Estamos em um momento crucial para o Mercosul e a União Europeia. O livre comércio não é apenas sobre commodities contra produtos industrializados; é uma via de mão dupla para ambos os setores. O Brasil tem uma indústria rica e exportadora de material ferroviário.
O IQF é o grande certificador que garante a qualidade tanto na exportação quanto na importação. No Mercosul, a grande indústria ferroviária é brasileira. Ao integrar ALAF e IQF, oferecemos a todos os países membros a garantia de que os produtos atendem às necessidades técnicas reais, sob um selo de qualidade respeitado, o que é muito diferente de operar sem parâmetros definidos.
O Observatório Ferroviário e a Inteligência Coletiva
Roberto Willians: Isso me remete ao Observatório Ferroviário Latino-Americano. Como esse instrumento de inteligência coletiva auxilia na redução da dependência tecnológica da nossa região?
Jean Pejo: O Observatório é um trabalho contínuo de melhoria da informação. Ele fornece dados sobre produção, extensão de malha, material rodante e condições de via. Isso é vital para quem deseja utilizar a ferrovia como prestadora de serviço e para os fabricantes que precisam planejar suas produções com base na vida útil dos equipamentos.
Independentemente de ciclos políticos, a integração ferroviária é uma política de Estado. Temos concessões onde o governo é o poder concedente e ele precisa dessas informações para as conexões bioceânicas (Atlântico-Pacífico) que estão em estudo. Parcerias como as do NDF atendem diretamente a essas necessidades de planejamento.
A Dimensão Humana: Transferência de Tecnologia e Inteligência Emocional
Jean Pejo: Falando em futuro, quais os planos de curto e médio prazo do NDF para a estruturação das normas NBR e a integração acadêmica?
Roberto Willians: Além das 16 pesquisas em curso, nosso foco é a especialização ancorada no IQF para evitar “arapucas” de ensino que não geram competência real. Queremos entregar profissionais competentes sob a luz de normas que não sejam apenas “cartórios”, mas procedimentos de segurança e qualidade. O engenheiro não pode ser apenas o homem da planilha; ele precisa do domínio técnico do trecho.
Jean Pejo: A capacitação é o ativo principal para a transferência de tecnologia. A China só deu o salto tecnológico no trem de alta velocidade porque exigiu transferência de tecnologia e capacitou sua gente. O aluno superar o mestre é a maior recompensa de um professor. A indústria brasileira crescerá se tivermos essa base de capacitação.
Contudo, Roberto, há um ponto que a imprensa não toca: a Inteligência Emocional. Podemos ter IA, Hyperloop e computação quântica, mas se as pessoas não estiverem preparadas emocionalmente para essas mudanças bruscas, falharemos. O objetivo da tecnologia deve ser tornar as pessoas mais felizes e integradas, não isoladas.
Roberto Willians: Brilhante observação. Nossa civilização foca no “ter” (o produto, o sistema) e negligencia o “ser” (as relações). Equipes com maior integração emocional respondem melhor aos desafios técnicos. A confiança e a camaradagem aceleram a solução de problemas. Na especialização do NDF, buscaremos realizar o “ser” profissional, aliando a técnica à humanidade.
Perspectivas Institucionais e Conclusão
Roberto Willians: Como você vê a relação nossa com o BNDES, ANTT e o Ministério dos Transportes neste novo cenário?
Jean Pejo: O IQF e a ALAF devem estar cada vez mais presentes como braços técnicos do Estado. Nossas reuniões com o BNDES e a ANTT estão se tornando cada vez mais ricas porque estamos em um processo de aprendizagem mútua. Estamos despertando nesses órgãos a percepção de como o IQF é útil para a nação.
Roberto Willians: Vivemos um momento singular. O 2o Encontro do IQF foi o ápice de um acúmulo de resultados técnicos em comitês de eixos e rodas, bem como os processos finais do Comitê Téc. Do Material de Atrito, além de mais dois novos Comitês, do AMV e, o da Tração. Agora, com a presença cada vez mais intensa da ABIFER, SIMEFRE (além de serem fundadoras) e novas universidades, criamos uma instituição poderosa. Além da técnica, influenciaremos a qualidade das políticas públicas, baseando-nos em modelos internacionais de dimensões gerenciais, sociais e estratégicas.
Jean Pejo: Excelente, Roberto. Que este diálogo contribua para o setor. Estamos à disposição para feedbacks e para aprofundar esses temas. A próxima conversa será ainda melhor.Roberto Willians: Gratidão, meu amigo. Seguimos juntos, sempre em frente.
