Presidente do IQF, Sérgio Inácio Ferreira explica como os primeiros Requisitos de Avaliação da Conformidade abrem caminho para a certificação voluntária, a segurança e o fortalecimento da cultura da qualidade no setor metroferroviário brasileiro.
IQF – O que são os RAC e qual é sua importância para o setor metroferroviário?
Sérgio Inácio Ferreira — Os RAC são os Requisitos de Avaliação da Conformidade. Eles reúnem e consolidam referências técnicas existentes, tanto nacionais quanto internacionais, considerando as condições de aplicação no Brasil.
O ponto de partida são as normas da ABNT, complementadas por referências internacionais, como as europeias e americanas, sempre avaliando sua adequação às características do setor metroferroviário brasileiro.
Os RAC servem como referência para os procedimentos de certificação voluntária realizados pelos Organismos de Certificação de Produtos (OCP).
O IQF criou Comitês Técnicos para desenvolver esses requisitos. Já temos os RAC de eixos e rodas metroferroviárias concluídos e registrados. Também contamos com Comitês de Materiais de Atrito e de Aparelhos de Mudança de Via (AMV), além da iniciativa de constituir um Comitê de Engates.
A importância desse trabalho está em estabelecer uma referência técnica comum para a avaliação dos produtos, contribuindo para garantir a qualidade e, consequentemente, a segurança das operações metroferroviárias.
IQF – Mais do que a publicação dos primeiros RAC, que transformação o IQF pretende promover no setor?
Sérgio — A publicação dos RAC de eixos e rodas representa o início de um processo de desenvolvimento da qualidade no setor metroferroviário brasileiro.
Hoje, temos normas técnicas da ABNT que abrangem diversos produtos, mas ainda não contamos com um sistema de certificação estruturado para o setor como existe em outros modais de transporte.
Nosso objetivo é desenvolver esse sistema, começando pelos produtos e avançando, futuramente, para outras áreas, como a qualificação da mão de obra e a certificação de sistemas.
A primeira certificação prevista é a de eixos metroferroviários. A partir dela, queremos ampliar gradualmente o alcance da certificação, contemplando outros componentes e atividades do setor.
Trata-se de um processo contínuo, que começa com esses primeiros requisitos, mas que tem uma perspectiva muito mais ampla.
IQF – Como o IQF pretende mobilizar empresas, operadores, associações e órgãos públicos em torno dessa iniciativa?
Sérgio — Mais do que desenvolver requisitos e procedimentos de certificação, queremos contribuir para a construção de uma cultura da qualidade e do desenvolvimento contínuo no setor.
Isso depende do engajamento de toda a cadeia metroferroviária: fabricantes, fornecedores, operadores de transporte de cargas e passageiros, associações, órgãos de controle, agências reguladoras e governos.
Desde o início, temos procurado divulgar essa iniciativa e promover a integração entre os diferentes participantes do setor, inclusive por meio dos encontros e eventos realizados pelo IQF.
Nosso propósito é que a qualidade se torne uma referência comum, porque entendemos que ela está diretamente relacionada à segurança das operações.
Mais do que desenvolver requisitos e procedimentos de certificação, queremos contribuir para a construção de uma cultura da qualidade e do desenvolvimento contínuo no setor.
IQF – Como os RAC podem contribuir para que a qualidade seja incorporada efetivamente aos processos das empresas?
Sérgio — Os RAC não são documentos estáticos. Eles precisam acompanhar a evolução das tecnologias, dos processos e das necessidades do setor.
Por isso, seu desenvolvimento deve ser contínuo, incorporando novos conhecimentos e experiências.
A participação dos fabricantes e operadores nos Comitês Técnicos é fundamental nesse processo. São essas empresas que conhecem as condições de fabricação, utilização e operação dos componentes.
Ao participarem da elaboração e atualização dos requisitos e, posteriormente, buscarem a certificação de seus produtos, elas contribuem para transformar as referências técnicas em práticas efetivas de qualidade.
IQF – Os RAC foram desenvolvidos pelos Comitês Técnicos do IQF. Como funciona essa construção coletiva e por que ela é importante?
Sérgio — Desde a criação dos Comitês Técnicos, procuramos envolver representantes dos diferentes segmentos do setor, incluindo fabricantes, operadores e entidades representativas, como a ANPTrilhos e a ANTF.
A participação é voluntária e, naturalmente, cada Comitê apresenta características próprias, com maior presença de determinados segmentos ou empresas.
Entretanto, nosso objetivo é ampliar essa representatividade, para que os requisitos sejam construídos com a participação dos diferentes agentes envolvidos e possam alcançar o maior consenso possível.
Isso é especialmente importante porque precisamos considerar as condições brasileiras de operação.
As normas internacionais são referências fundamentais, mas as características do transporte metroferroviário no Brasil não são necessariamente iguais às encontradas nos Estados Unidos ou na Europa.
Por isso, a experiência dos profissionais brasileiros e a participação dos diferentes segmentos são essenciais para que os RAC sejam tecnicamente consistentes e aplicáveis à nossa realidade.
IQF – Por que eixos e rodas foram os primeiros RAC concluídos? Quais critérios orientam a escolha dos componentes?
Sérgio — Precisávamos estabelecer um ponto de partida, e o principal critério adotado foi a segurança.
Todos os componentes metroferroviários têm sua importância, mas decidimos começar por aqueles diretamente relacionados à segurança das operações.
Por isso, os três primeiros Comitês criados foram os de Eixos, Rodas e Materiais de Atrito.
No caso dos materiais de atrito, estamos falando de componentes relacionados aos sistemas de frenagem, como sapatas de freio utilizadas no transporte de cargas e pastilhas de freio empregadas no transporte de passageiros.
São componentes fundamentais para a segurança do transporte ferroviário, tanto de cargas quanto de pessoas.
A segurança continuará sendo uma referência importante na definição das próximas prioridades.
IQF – Como transformar os requisitos técnicos em instrumentos efetivamente utilizados pelo mercado?
Sérgio — Essa transição depende, principalmente, da conscientização sobre a importância da qualidade.
Quando uma empresa desenvolve e oferece produtos de qualidade, ela fortalece sua posição na cadeia produtiva, estimula a inovação e cria condições para ampliar sua competitividade.
Inicialmente, buscamos garantir produtos adequados e seguros para aplicação no mercado brasileiro. Mas uma indústria que produz com qualidade e produtividade também pode conquistar oportunidades no mercado internacional.
Temos exemplos em outros setores, como o automotivo, em que a certificação contribuiu para fortalecer a qualidade dos produtos e a competitividade da indústria.
Acreditamos que o setor metroferroviário pode seguir esse caminho.
O desenvolvimento de requisitos consistentes, aplicáveis e reconhecidos pelo mercado pode contribuir tanto para a segurança das operações brasileiras quanto para ampliar as oportunidades da indústria nacional.
IQF – Quais são os próximos passos para que os RAC se transformem em programas de certificação voluntária e sejam adotados pelas empresas?
Sérgio — É um processo que envolve conscientização, divulgação, mobilização e, principalmente, adesão das empresas.
O IQF vem trabalhando nessas diferentes frentes, por meio dos Comitês Técnicos, dos eventos e das ações de comunicação, para demonstrar a importância da certificação.
Não basta que uma empresa exija o cumprimento de uma norma nacional ou internacional. É importante avançar para um sistema que permita avaliar e certificar a conformidade dos produtos.
Para isso, precisamos do envolvimento dos fabricantes, operadores, organismos certificadores, órgãos de controle e agências reguladoras.
O papel do IQF é contribuir para o desenvolvimento dos RAC e atuar como elo de ligação com os Organismos de Certificação de Produtos (OCP) e o Inmetro, para que tenhamos um sistema de certificação que funcione efetivamente no Brasil.
Acreditamos que, a partir das primeiras certificações voluntárias, esse processo ganhará continuidade e poderá alcançar progressivamente outros produtos e segmentos.
O que desejamos é uma reserva de qualidade, não uma reserva de mercado.
IQF – Como a certificação voluntária pode elevar o padrão de qualidade dos produtos sem criar barreiras de entrada ou mecanismos de reserva de mercado?
Sérgio — No IQF, defendemos que nosso objetivo não é criar uma reserva de mercado, mas uma reserva de qualidade.
Não importa a origem do produto. O que queremos é que ele seja avaliado segundo requisitos técnicos aplicáveis às condições brasileiras e passe pelos procedimentos dos organismos certificadores no Brasil.
Sabemos que existem produtos de qualidade no mercado internacional, assim como existem produtos que não atendem necessariamente aos padrões desejados.
A questão é como avaliar essa qualidade de maneira consistente, se não tivermos um sistema de referência e certificação no país.
Não queremos restringir o mercado pela origem dos produtos. Queremos estabelecer condições para que os produtos utilizados no setor metroferroviário brasileiro atendam aos requisitos de qualidade e segurança.
É essa a diferença entre reserva de mercado e reserva de qualidade.
IQF – Como fazer com que a certificação seja percebida pelas empresas como um investimento em qualidade e competitividade, e não apenas como um custo adicional?
Sérgio — É importante analisar a certificação considerando seus benefícios ao longo do tempo.
No modelo de certificação voluntária que estamos desenvolvendo, a certificação tem validade de cinco anos, com avaliações periódicas para verificar se o processo de fabricação continua atendendo aos requisitos estabelecidos.
Portanto, seu custo deve ser considerado ao longo desse período, em relação aos ganhos de qualidade e segurança.
Outro aspecto fundamental é a padronização.
Hoje, quando cada operador estabelece seus próprios procedimentos e ensaios para avaliar a qualidade dos componentes que utiliza, existe uma multiplicação de esforços e custos.
Se tivermos uma referência técnica comum, uma espécie de régua mínima de qualidade, todos poderão partir de uma mesma base.
Isso não impede que determinada empresa estabeleça exigências adicionais ou realize ensaios específicos. Mas permite que exista um padrão mínimo compartilhado, capaz de garantir condições de segurança.
Ao invés de representar necessariamente um aumento de custos, a certificação pode contribuir para reduzi-los, evitando a repetição de avaliações e procedimentos individuais.
Essa lógica já é aplicada em outros países, como Estados Unidos, Japão e países europeus.
Precisamos compreender que a certificação não deve ser vista apenas como uma despesa, mas como um instrumento para garantir qualidade, segurança e maior eficiência para toda a cadeia produtiva.
IQF – Que impactos uma cultura mais estruturada de avaliação da conformidade pode trazer para a operação, a manutenção e a confiabilidade dos sistemas metroferroviários?
Sérgio — A confiabilidade depende de parâmetros de referência.
Para realizar uma manutenção preditiva, por exemplo, precisamos de informações e critérios que permitam avaliar o comportamento dos componentes e acompanhar seu desempenho.
Quando temos padrões técnicos comuns para o setor, conseguimos trabalhar com uma base de referência mais consistente.
Isso contribui para a formação de bases de dados, para o planejamento da manutenção e para a avaliação da confiabilidade dos equipamentos.
Portanto, além de garantir a qualidade e a segurança, a padronização e a certificação também podem contribuir para aumentar a confiabilidade dos sistemas metroferroviários.
É uma base mais sólida para o desenvolvimento do setor.
IQF – Outros modais de transporte já possuem sistemas consolidados de certificação. O que o setor metroferroviário pode aprender com essas experiências?
Sérgio — No último Encontro do IQF, trouxemos representantes dos setores aeronáutico, naval e automotivo para compartilhar suas experiências com sistemas de certificação.
São setores que já incorporaram a certificação aos seus processos de avaliação da qualidade e da segurança.
Na aviação, por exemplo, existem exigências rigorosas de certificação para que uma aeronave possa operar. No setor naval, a certificação também está relacionada a requisitos de segurança e condições para obtenção de seguros.
No setor automotivo, temos a experiência do Instituto da Qualidade Automotiva (IQA), que se tornou uma referência importante para a certificação.
A pergunta que fazemos é: por que o setor metroferroviário não deveria contar também com um sistema estruturado de certificação, considerando a importância da segurança no transporte de cargas e passageiros?
Uma das resistências que percebemos está relacionada à preocupação com o aumento de custos e com possíveis limitações à liberdade de aquisição de produtos.
Mas precisamos considerar que a liberdade de compra não pode comprometer a segurança, assim como um menor preço de aquisição não significa necessariamente um menor custo ao longo do tempo.
A indústria aeronáutica brasileira é um exemplo importante. A Embraer conquistou espaço no mercado internacional não apenas pelo preço de seus produtos, mas também pela qualidade que oferece.
Essa é uma referência que queremos trazer para o setor metroferroviário: a qualidade como condição essencial para a segurança, o desenvolvimento e a competitividade.
IQF – O desenvolvimento dos RAC também pode estimular a inovação e o desenvolvimento tecnológico do setor?
Sérgio — Sim. A qualidade está diretamente relacionada ao desenvolvimento tecnológico e à inovação.
Para atender às necessidades dos usuários, precisamos aprimorar continuamente produtos, processos e sistemas.
Se queremos transportar mais cargas, com maior eficiência, menor desperdício e preservando a integridade dos produtos, precisamos desenvolver novas soluções.
O mesmo acontece quando buscamos melhorar a segurança e o desempenho dos equipamentos.
Podemos observar isso no setor automotivo. Tecnologias como os sistemas ABS e os airbags, que hoje fazem parte dos requisitos de segurança dos veículos, representam avanços que foram incorporados ao longo do tempo.
A inovação permite elevar os padrões de qualidade e segurança.
Por isso, entendemos que qualidade, certificação, desenvolvimento tecnológico e inovação são elementos que caminham juntos.
Queremos que todos os segmentos do setor metroferroviário participem da construção de um sistema brasileiro de certificação, contribuindo com conhecimento, experiência e propostas.
IQF – Qual é a visão do IQF para os próximos anos? Que legado o Instituto pretende construir a partir dos primeiros RAC e da certificação voluntária?
Sérgio — Nossa principal expectativa é ampliar a adesão de todos os segmentos do setor metroferroviário a esse processo.
Estamos falando dos fabricantes, operadores, órgãos de controle, agências reguladoras, universidades, instituições de pesquisa e demais entidades envolvidas.
A participação das universidades e dos centros de pesquisa é especialmente importante, tanto para o desenvolvimento tecnológico quanto para a formação e qualificação dos profissionais que atuarão no setor.
Queremos que todos participem da construção desse sistema, contribuindo com conhecimento, experiência e propostas.
Hoje, algumas empresas já exigem certificações baseadas em referências internacionais, como as normas americanas e europeias.
O que desejamos, a médio e longo prazo, é que o Brasil também tenha seu próprio sistema de avaliação da conformidade e certificação, com requisitos aplicáveis à nossa realidade, e que sua utilização seja progressivamente incorporada pelas empresas e operadores.
Para isso, a participação de todos é fundamental. Não basta acompanhar o processo de fora. É importante contribuir para sua construção e aperfeiçoamento.
IQF – Se pudesse resumir em uma mensagem o significado dos primeiros RAC para o futuro do setor, qual seria?
Sérgio — Estamos começando um longo caminho, mas é um começo necessário para que possamos chegar a um sistema mais amplo de certificação do setor metroferroviário.
Começamos com alguns produtos, inicialmente os eixos, porque precisamos dar o primeiro passo.
Ter um eixo metroferroviário certificado no Brasil, utilizado tanto no transporte de cargas quanto no de passageiros, já representará um avanço importante para a qualidade e a segurança do setor.
Mas queremos ir além.
E deixo um convite para que fabricantes, operadores, universidades, instituições de pesquisa e entidades representativas participem ativamente desse processo.
Essa participação deve acontecer em duas frentes: primeiro, na elaboração e no aperfeiçoamento dos RAC e das normas técnicas; depois, na utilização da certificação, seja certificando seus próprios produtos, seja dando preferência à aquisição de produtos certificados.
É com essa integração e com a participação de todos que poderemos avançar na construção de um sistema de certificação capaz de fortalecer a qualidade e a segurança do transporte metroferroviário brasileiro.
