Destaque / Normatização e certificação no setor metroferroviário brasileiro

ENTREVISTA | IQF

Normatização e certificação no setor metroferroviário brasileiro

Uma conversa entre o Prof. Roberto Willians de Santana e o Eng. Paschoal de Mário, Coordenador Geral do Comitê Brasileiro Metroferroviário (ABNT/SIMEFRE), sobre os desafios e perspectivas da normalização técnica e certificação no desenvolvimento ferroviário nacional.

Primeiramente, agradeço sua presença em nossa entrevista. Desenvolvemos uma iniciativa de diálogo rotativo onde diferentes especialistas compartilham suas perspectivas – o Sebastião foi entrevistado pelo Alexandre, e hoje tenho a honra de conversar com você.

Gostaria de iniciar abordando uma questão fundamental: consolidamos no setor metroferroviário a compreensão de que o desenvolvimento passa necessariamente por dois pilares estruturantes – normalização e certificação. Enquanto o mercado internacional opera com padrões técnicos consolidados e mecanismos formais de certificação que garantem segurança, interoperabilidade e competitividade global, o Brasil tem avançado na organização de suas diretrizes técnicas através da atuação da ABNT e na construção de sistemas voluntários de certificação, conforme proposto pelo Instituto de Qualidade Ferroviária (IQF).

Neste contexto, gostaria que você abordasse o papel estratégico da normalização técnica e sua relação com o IQF, bem como a importância da ABNT neste processo que estamos construindo conjuntamente.

Eng. Paschoal de Mário: Professor, o IQF representa uma ferramenta fundamental para fortalecer os produtos ferroviários brasileiros através da certificação. Infelizmente, a importância da ferrovia não é devidamente reconhecida em nosso país, sendo que a ferrovia constitui questão de segurança nacional – essencial para nossas Forças Armadas no transporte de armamentos e alimentos.

Lamentavelmente, nossa indústria está sendo progressivamente sucateada devido à ausência de isonomia entre produtos nacionais e importados. Temos exemplos preocupantes, como os trens chineses em São Paulo-Campinas e em Belo Horizonte, onde observamos gestores celebrando a aquisição de material rodante estrangeiro.

Acredito que através da certificação de produtos conseguiremos defender a indústria nacional. O IQF necessita do apoio integral das ferrovias – não apenas do setor industrial, mas também das operadoras ferroviárias que atualmente estão em atividade. As empresas ferroviárias de carga precisam nos apoiar, pois assim teremos a força necessária, o espírito de corpo entre todos os ferroviários.

Eng. Paschoal de Mário: O CB-06 está integralmente à disposição para este empreendimento. Estou organizando uma reunião com o diretor técnico da ABNT para discutirmos a questão da certificação conjuntamente. Pretendo envolver não apenas o CB-06, mas também a própria ABNT como parceira, possibilitando a participação de outros comitês relevantes – como o comitê de parafusos, que é importante para nós, e diversos outros comitês relacionados à eletricidade.

O Comitê Brasileiro Metroferroviário está disponível e empenhado. Após a reunião que terei com o diretor da ABNT em São Paulo, poderemos alertar sobre a importância de termos a ABNT como parceira na questão das normas. Quando uma norma é publicada, devemos ter o direito de verificar como podemos disponibilizar essas normas para o IQF sem custos adicionais.

Eng. Paschoal de Mário: Recordo-me de quando, durante o governo militar, a lei de licitações possuía um artigo estabelecendo que a aquisição de produtos pelo governo federal, estadual ou municipal deveria seguir as normas ABNT. Infelizmente, este dispositivo foi retirado em 1988 e posteriormente em 1993.

A nova lei de licitações (Lei 14.133/2021) estabelece a obrigatoriedade de normas nacionais ou, quando referendadas pelo Inmetro, normas internacionais. Considero que o governo deveria tornar obrigatória a aplicação das normas brasileiras nesta lei de licitações. Na ausência de norma brasileira, então sim, uma norma mundialmente reconhecida, inclusive pelo Inmetro, deveria ser aplicada.

Eng. Paschoal de Mário: Precisamos trabalhar conjuntamente com o Inmetro, com a ANTT e com o DNIT para que possamos estabelecer critérios adequados de licitação e certificação destes produtos. Tendo essas organizações conosco – ANTT, DNIT, juntamente com operadoras metroferroviárias – poderemos alcançar nosso objetivo: a defesa da indústria nacional ferroviária.

Eng. Paschoal de Mário: Nossa ferrovia é diferente de todas as demais existentes no mundo. Possuímos bitolas universais, bitolas largas, bitolas estreitas, terceiro trilho. Outro grande problema é que nossas normas são sempre baseadas em AREMA, o que não é adequado. Temos também normas europeias para carros de passageiros, gerando problemas de compatibilidade entre trilho AREMA e material rodante europeu, especialmente na questão do contato roda-trilho.

Temos rodas fundidas e forjadas, trilhos dimensionados principalmente para rodas forjadas. Nosso país é diferente em todos os aspectos, Professor. Precisamos realmente apoiar nossas fábricas brasileiras, pois o que fabricamos é adequado à nossa via permanente.

Para ilustrar: a Vale importou um trem da Romênia – um trem de passageiros especial. O Ministério Público solicitou que o CB-06 elaborasse adaptações no projeto deste trem romeno para adequá-lo às necessidades brasileiras e aos nossos materiais ferroviários. A certificação proporcionará esta confiabilidade, e nossas empresas ferroviárias devem apoiar esta iniciativa, pois é fundamental para nosso país.

Eng. Paschoal de Mário: O SIMEFRE estabeleceu um convênio com o SENAI, que está implantando na Vila Leopoldina um instituto de pesquisa na área ferroviária. Já possuem um vagão e uma via de 50 a 100 metros para realizar pesquisas ferroviárias. O SENAI é uma das maiores instituições de ensino do Brasil – uma verdadeira academia. Estabelecemos este convênio justamente porque o SENAI implementará este Instituto de Qualidade na Vila Leopoldina para pesquisas ferroviárias e também para preparar mão de obra para o setor ferroviário.

Eng. Paschoal de Mário: Esta é uma iniciativa pela qual venho trabalhando há tempo. É fundamental realizarmos palestras nessas universidades para motivar os estudantes. Quando os alunos abraçam esta ideia, ninguém os detém. A universidade é muito importante, mas precisamos realizar essas palestras nas universidades.

Realizei uma palestra em Ouro Preto sobre a importância do engenheiro civil na construção das ferrovias. Os estudantes ficaram entusiasmados, pois desconheciam completamente o assunto. Muitos nem sabem o que é viajar de trem. Precisamos desenvolver este trabalho de divulgação nas universidades, talvez através de reuniões online, mas devemos implementar um programa de conscientização dos universitários.

Eng. Paschoal de Mário: Quando me convidaram para colaborar com o IQF, disse ao Sérgio que precisávamos trazer a ANTF conosco. Quando assumi o CB-06 em 2004, recebi comunicado da ABNT informando que iriam extinguir o Comitê. Minha primeira providência foi reunir-me com antigos coordenadores e buscar apoio da ANTF. Conversei com Rodrigo Vilaça, então na ANTF, e expliquei que precisávamos fazer o CB-06 exercer efetivamente seu papel. Hoje possuo dez comissões de estudos graças ao apoio que a ANTF me proporcionou.

Se tivermos este apoio da ANTF, avançaremos significativamente. Podemos mobilizar universidades, grandes institutos de pesquisa como Unicamp, IPT, NDF-MG, COPPE etc., além de contar com ANTT e outros órgãos governamentais importantes. Todo o movimento metroferroviário trabalhará efetivamente para impulsionar o setor.

Eng. Paschoal de Mário: A ANTF disponibilizou uma pessoa para trabalhar no CB-06 – o Mário Barcelos, que atua como secretário de todas as comissões de estudos. Anteriormente, cada comissão possuía seu coordenador e secretário; unificamos com um único secretário para todas as comissões.

Se conseguirmos conscientizar as operadoras ferroviárias de que qualidade é mais importante que preço, e com nossa equipe, desenvolveremos nossa indústria ferroviária e nossas ferrovias. Infelizmente, muitos ainda se preocupam prioritariamente com custo e preço, resultando em situações como a dos trens chineses no Rio de Janeiro.

Precisamos, através da ANTF, fazer com que os presidentes das ferrovias compreendam a importância da qualidade na ferrovia nacional e das fábricas nacionais de produtos ferroviários.

Eng. Paschoal de Mário: Exatamente: preço, qualidade, desempenho e segurança.

Eng. Paschoal de Mário: Com esses parceiros, Professor, seguiremos tranquilamente. Ninguém nos deterá tendo essa parceria – possuiremos sinergia elevada. Teremos qualidade, bom desempenho nas ferrovias, segurança e, se Deus quiser, segurança nacional.

Eng. Paschoal de Mário: Precisamos depender de nossa indústria, não da indústria de terceiros. A participação de empresas estrangeiras é importante – temos empresas de sinalização

europeias de qualidade, como CAF e outras que colaboram estabelecendo fábricas no Brasil, gerando emprego para brasileiros. É importante que venham para o Brasil, mas trazendo mão de obra brasileira e instalando verdadeiramente indústrias no Brasil, não simplesmente importando produtos.

Eng. Paschoal de Mário: Tudo isso contribuirá perfeitamente para nossas ferrovias. Possuímos o produto, fabricamos com qualidade, temos norma técnica e tecnologia de fabricação. O que falta para a vida ferroviária é apenas a certificação. Uma vez certificado, não precisamos discutir a qualidade do produto – ela garante desempenho e segurança.

Eng. Paschoal de Mário: Certamente.

Eng. Paschoal de Mário: Já estamos exportando produtos através de nossas associações para a América Latina e Ásia. Aqui no Brasil, estamos aceitando material rodante estrangeiro. Empresas brasileiras exportam para a América do Sul, mas importamos material rodante estrangeiro. O problema é que não temos demanda constante – essa é a justificativa apresentada. Eles entregam em um ano, nós em dois, porque possuem demanda constante. Considere o caso dos trilhos: há quanto tempo venho defendendo a fabricação de trilhos novamente no Brasil, como nas fábricas dos anos 70. Alegam que não há demanda, mas existe demanda – é mais fácil importar trilhos que fortalecer a indústria nacional.

Temos na CSN a capacidade de fabricação de trilhos através de empresa subsidiária, como nos anos 70-80. As laminadoras estão paradas. É a mesma situação das montadoras de vagões e carros de passageiros. Se tivermos demanda constante no Brasil, temos condição de produzir 10 mil vagões anuais, mas não há demanda contínua. Consequentemente, a mão de obra é dispensada.

Precisamos conscientizar as operadoras da necessidade de valorizar nossas empresas ferroviárias e fabricantes. Este trabalho deve ser realizado através do IQF, de nossas palestras e esforços.

Eng. Paschoal de Mário: No CB-06, possuímos verdadeiros cientistas que introduzem nas normas estrangeiras – inclusive AREMA e europeias – adaptações necessárias às nossas vias ferroviárias. São verdadeiros cientistas com tecnologia e capacidade intelectual para isso. Infelizmente, o brasileiro não é valorizado adequadamente. Se o senhor participar de nossas reuniões cotidianas – seja de vagões ou via permanente – ficará impressionado com os cientistas presentes em nossas comissões. São verdadeiros professores.

Eng. Paschoal de Mário: Há muito tempo venho tentando constituir um comitê técnico ferroviário. Alguns participaram inicialmente, depois se afastaram. Talvez possamos fazer do CB-06 e SIMEFRE uma entidade única.

Através do IQF, podemos formar um “Fórum Técnico Ferroviário Permanente” dentro do Instituto, realizando reuniões e discussões sobre estes assuntos. O SIMEFRE está à disposição do IQF. Desta forma, construiremos este Fórum Técnico Ferroviário Brasileiro. Inclusive colocamos a disposição a sala do SIMEFRE para esta nobre atividade.

Vamos utilizar essas competências e nos reunir periodicamente para discutir e alavancar nossos trabalhos, transformando ideias em realizações práticas. Vejo muitos eventos que terminam sem continuidade. Se tivermos este fórum técnico dentro do IQF, produziremos muito que será implementado por empresas brasileiras, não apenas permanecendo no papel.

Eng. Paschoal de Mário: Realizei uma palestra sobre empoderamento. Quando me perguntaram sobre poder, respondi que desejo gerar capacidade coletiva de alterar, melhorar e inovar para a ferrovia – esse é o empoderamento. Neste processo, esses pensadores serão professores dos professores, projetistas dos projetistas, fabricantes dos fabricantes. É isso que precisamos.

A academia inicia este novo caminho, concentrando-se no que importa e transforma positivamente nossa ferrovia. Começa com professores, pesquisadores, sonhadores. A importância da academia é fundamental.

Eng. Paschoal de Mário: Exatamente, incluindo reuniões presenciais. É importante começar a desenvolver projetos presencialmente. O presencial é fundamental – algumas reuniões do fórum devem ser verdadeiras reuniões de trabalho. É interessante o formato online, mas se estivermos juntos, olho no olho, há responsabilidade no que estamos propondo.

Eng. Paschoal de Mário: Certamente isso fortalecerá significativamente nosso trabalho. Possuo alguns trabalhos desenvolvidos pelo colega Aurélio quando começamos a conceber este comitê técnico ferroviário. Posteriormente enviarei ao Professor para que tenha ideia de como estávamos construindo este caminho técnico – nosso comitê técnico ferroviário.

Eng. Paschoal de Mário: Perfeitamente, Professor. É exatamente isso que acontecerá se trabalharmos adequadamente. Devo mencionar que transferi minha viagem para Belo Horizonte, originalmente marcada para amanhã às 8h30, para período posterior. Esta viagem estava programada há três meses, mas considerei importante participar desta entrevista e do 2 Encontro do IQF.

Eng. Paschoal de Mário: Quando programo viagens, sempre marco passagens com três ou quatro meses de antecedência. Transferi o voo matinal para o período vespertino porque considerei fundamental nossa conversa.

Eng. Paschoal de Mário: É fundamental que a ANTF, ANPTRILHOS, ANTT e demais órgãos públicos e privados conscientizem os operadores ferroviários sobre a importância da qualidade, da indústria nacional e de nossas ferrovias. Devemos trabalhar conjuntamente com ANTT, DNIT e outros órgãos nacionais importantes, incluindo governadores e prefeitos no caso dos VLTs.Precisamos demonstrar a eles a importância da ferrovia, dos trens de passageiros e de carga. Devemos nos unir ao Inmetro e demais entidades de pesquisa e universidades. Isso podemos planejar e implementar através de nosso fórum permanente.

Eng. Paschoal de Mário: Excelente. Abraço, Professor.

Esta entrevista foi realizada como parte da série de diálogos sobre o desenvolvimento do setor metroferroviário brasileiro, destacando a importância da normatização técnica e certificação para o fortalecimento da indústria nacional e a garantia de segurança e qualidade no transporte ferroviário, no dia 19 de Março de 2026, das 11hs até 12 hs.

Eng. Paschoal De Mario

Atuação Institucional e Liderança
Coordenador do Comitê Brasileiro de Transportes e Tráfego (ABNT/CB-006): Lidera a normalização técnica do setor ferroviário na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), garantindo a padronização e a segurança de componentes e sistemas.
Diretor do SIMEFRE: Atua como Diretor de Relações Industriais e Institucionais do Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários.
Conselheiro do Conselho de Tecnologia da ABIFER: Contribui ativamente na Associação Brasileira da Indústria Ferroviária, sendo um elo vital entre a indústria e o desenvolvimento tecnológico.
Certificação de Qualidade: Atuação direta na melhoria dos padrões de qualidade de componentes essenciais para a operação segura das ferrovias.

Prof. Roberto Willians de Santana

Especialista em Projetos Metroferroviários e Políticas Públicas
Formação Acadêmica:
Mestre em Engenharia de Produção – COPPE/UFRJ.
MBA em Gestão de Projetos – USP/ESALQ.
Especialista em Políticas Públicas – CEPERJ/UERJ.
Cientista Social – UFFAtuação Estratégica Atual:
Diretor Técnico da Athenas Projetos: Startup focada em engenharia e tecnologia para a retomada ferroviária (passageiros e carga regional).
Membro do Núcleo de Desenvolvimento Tecnológico Ferroviário (NDF-MG): Atua na articulação entre academia e o poder público para o Plano Estratégico Ferroviário de Minas Gerais.
Membro do Instituto da Qualidade Ferroviária (IQF): Foco em normatização e certificação de componentes ferroviários.
Conselheiro Técnico: Participante ativo em Audiências Públicas na ALMG e em frentes parlamentares municipais da Grande BH para a reativação de trechos ferroviários.