Uma conversa entre o Prof. Roberto Willians de Santana e o Eng. Paschoal de Mário, Coordenador Geral do Comitê Brasileiro Metroferroviário (ABNT/SIMEFRE), sobre os desafios e perspectivas da normalização técnica e certificação no desenvolvimento ferroviário nacional.
Primeiramente, agradeço sua presença em nossa entrevista. Desenvolvemos uma iniciativa de diálogo rotativo onde diferentes especialistas compartilham suas perspectivas – o Sebastião foi entrevistado pelo Alexandre, e hoje tenho a honra de conversar com você.
Gostaria de iniciar abordando uma questão fundamental: consolidamos no setor metroferroviário a compreensão de que o desenvolvimento passa necessariamente por dois pilares estruturantes – normalização e certificação. Enquanto o mercado internacional opera com padrões técnicos consolidados e mecanismos formais de certificação que garantem segurança, interoperabilidade e competitividade global, o Brasil tem avançado na organização de suas diretrizes técnicas através da atuação da ABNT e na construção de sistemas voluntários de certificação, conforme proposto pelo Instituto de Qualidade Ferroviária (IQF).
Neste contexto, gostaria que você abordasse o papel estratégico da normalização técnica e sua relação com o IQF, bem como a importância da ABNT neste processo que estamos construindo conjuntamente.
Eng. Paschoal de Mário: Professor, o IQF representa uma ferramenta fundamental para fortalecer os produtos ferroviários brasileiros através da certificação. Infelizmente, a importância da ferrovia não é devidamente reconhecida em nosso país, sendo que a ferrovia constitui questão de segurança nacional – essencial para nossas Forças Armadas no transporte de armamentos e alimentos.
Lamentavelmente, nossa indústria está sendo progressivamente sucateada devido à ausência de isonomia entre produtos nacionais e importados. Temos exemplos preocupantes, como os trens chineses em São Paulo-Campinas e em Belo Horizonte, onde observamos gestores celebrando a aquisição de material rodante estrangeiro.
Acredito que através da certificação de produtos conseguiremos defender a indústria nacional. O IQF necessita do apoio integral das ferrovias – não apenas do setor industrial, mas também das operadoras ferroviárias que atualmente estão em atividade. As empresas ferroviárias de carga precisam nos apoiar, pois assim teremos a força necessária, o espírito de corpo entre todos os ferroviários.
Prof. Roberto Willians de Santana: Dentro desta perspectiva, já iniciamos trabalhos com três comissões – comitê de roda, comitê de eixo e comitê de material de atrito. Estamos prestes a estabelecer mais dois comitês: o comitê de AMV e via permanente, além de um comitê sobre certificação profissional e cursos. Gostaria de sua impressão sobre a importância da participação massiva de engenheiros que atuam no Comitê Brasileiro Metroferroviário neste processo. Como você avalia nosso progresso até o momento e as perspectivas para o lançamento da certificação voluntária?
Eng. Paschoal de Mário: O CB-06 está integralmente à disposição para este empreendimento. Estou organizando uma reunião com o diretor técnico da ABNT para discutirmos a questão da certificação conjuntamente. Pretendo envolver não apenas o CB-06, mas também a própria ABNT como parceira, possibilitando a participação de outros comitês relevantes – como o comitê de parafusos, que é importante para nós, e diversos outros comitês relacionados à eletricidade.
O Comitê Brasileiro Metroferroviário está disponível e empenhado. Após a reunião que terei com o diretor da ABNT em São Paulo, poderemos alertar sobre a importância de termos a ABNT como parceira na questão das normas. Quando uma norma é publicada, devemos ter o direito de verificar como podemos disponibilizar essas normas para o IQF sem custos adicionais.
Prof. Roberto Willians de Santana: Neste contexto, você percebe que a certificação, combinada com as normas já consolidadas e aprofundadas pela ABNT, é fundamental não apenas para garantir segurança e operabilidade, mas sobretudo para assegurar concorrência de mercado justa. Do ponto de vista estratégico e soberano, qual sua opinião sobre esta questão?
Eng. Paschoal de Mário: Recordo-me de quando, durante o governo militar, a lei de licitações possuía um artigo estabelecendo que a aquisição de produtos pelo governo federal, estadual ou municipal deveria seguir as normas ABNT. Infelizmente, este dispositivo foi retirado em 1988 e posteriormente em 1993.
A nova lei de licitações (Lei 14.133/2021) estabelece a obrigatoriedade de normas nacionais ou, quando referendadas pelo Inmetro, normas internacionais. Considero que o governo deveria tornar obrigatória a aplicação das normas brasileiras nesta lei de licitações. Na ausência de norma brasileira, então sim, uma norma mundialmente reconhecida, inclusive pelo Inmetro, deveria ser aplicada.
Prof. Roberto Willians de Santana: Sempre observo certa confusão sobre este tema. As pessoas frequentemente consideram que a norma da ABNT já é suficiente para certificação, o que não corresponde à realidade. A norma tem função orientadora, fundamental para quem trabalha no desenvolvimento de processos, procedimentos operacionais e planos de ensaio e teste. Quais elementos você destacaria para esclarecer a diferença entre o desenho normativo e o procedimento de certificação, considerando que o IQF possui parceria com o Inmetro?
Eng. Paschoal de Mário: Precisamos trabalhar conjuntamente com o Inmetro, com a ANTT e com o DNIT para que possamos estabelecer critérios adequados de licitação e certificação destes produtos. Tendo essas organizações conosco – ANTT, DNIT, juntamente com operadoras metroferroviárias – poderemos alcançar nosso objetivo: a defesa da indústria nacional ferroviária.
Prof. Roberto Willians de Santana: Como mencionei anteriormente, muitas pessoas confundem estes conceitos. A norma constitui uma referência, enquanto a certificação representa o mecanismo de verificação. Como você vê este processo funcionando na prática?
Estamos desenvolvendo a primeira certificação do comitê técnico de eixo, que já está praticamente concluída. O comitê de rodas necessita apenas de mais uma reunião para finalização, e o de material de atrito deve concluir seus trabalhos até maio. Nesta articulação com a ANTT, observo que a agência ainda se mantém muito ancorada em normas internacionais, desconsiderando que nosso ambiente tropical, geologia, morfologia de solo e clima apresentam singularidades que as normas internacionais não contemplam adequadamente. Qual sua percepção sobre esta questão?
Eng. Paschoal de Mário: Nossa ferrovia é diferente de todas as demais existentes no mundo. Possuímos bitolas universais, bitolas largas, bitolas estreitas, terceiro trilho. Outro grande problema é que nossas normas são sempre baseadas em AREMA, o que não é adequado. Temos também normas europeias para carros de passageiros, gerando problemas de compatibilidade entre trilho AREMA e material rodante europeu, especialmente na questão do contato roda-trilho.
Temos rodas fundidas e forjadas, trilhos dimensionados principalmente para rodas forjadas. Nosso país é diferente em todos os aspectos, Professor. Precisamos realmente apoiar nossas fábricas brasileiras, pois o que fabricamos é adequado à nossa via permanente.
Para ilustrar: a Vale importou um trem da Romênia – um trem de passageiros especial. O Ministério Público solicitou que o CB-06 elaborasse adaptações no projeto deste trem romeno para adequá-lo às necessidades brasileiras e aos nossos materiais ferroviários. A certificação proporcionará esta confiabilidade, e nossas empresas ferroviárias devem apoiar esta iniciativa, pois é fundamental para nosso país.
Prof. Roberto Willians de Santana: Geralmente, a academia e a pesquisa desenvolvem sistemas e produtos, mas dialogamos pouco com o mercado e, sobretudo, com os desenhos normativos. Frequentemente entregamos produtos de desenvolvimento tecnológico surpreendentes, mas que não estão adequadamente alinhados com o setor, especialmente com os comitês técnicos e os processos de certificação.
A certificação, que utiliza a norma como referência e estabelece mecanismos de validação, não fortaleceria a relação entre academia – que produz tecnologia – e os processos de qualidade e segurança no meio metroferroviário? Considero que isso contribuiria para uma relação que até então era frágil, mas que hoje temos possibilidade de tornar mais orgânica, já que o próprio IQF conecta não apenas profissionais da área, mas também engenheiros pesquisadores, favorecendo um diálogo mais vivo entre o pensamento acadêmico e a estruturação normativa.
Eng. Paschoal de Mário: O SIMEFRE estabeleceu um convênio com o SENAI, que está implantando na Vila Leopoldina um instituto de pesquisa na área ferroviária. Já possuem um vagão e uma via de 50 a 100 metros para realizar pesquisas ferroviárias. O SENAI é uma das maiores instituições de ensino do Brasil – uma verdadeira academia. Estabelecemos este convênio justamente porque o SENAI implementará este Instituto de Qualidade na Vila Leopoldina para pesquisas ferroviárias e também para preparar mão de obra para o setor ferroviário.
Prof. Roberto Willians de Santana: Com este movimento do IQF, temos uma singularidade: diferentemente de Portugal, onde a Associação Nacional de Certificação não possui comitê de pesquisa e desenvolvimento, no Brasil criamos algo singular. Não apenas membros ligados a operadoras e indústria estão presentes, mas a academia também participa – USP, Unicamp, COPPE, NDF-MG (que representa treze universidades).
Desenvolvemos uma proposta para o Ministério de Ciência e Tecnologia e FINEP para criar uma linha de financiamento destinada às universidades que já trabalham com ferrovia, incluindo Santa Catarina e outras instituições, ampliando a diversidade e o campo de investigação, na direção de dar condições de desenvolvimento de laboratórios de ensaios e testes para o segmento ferroviário, como uma rede para este fim, conjugando pesquisa sofisticada e os processos de certificação , rede está vinculada ao IQF.
Não seria apenas o SENAI – que já está conosco neste processo – mas envolveríamos essas instituições presentes nos comitês técnicos de certificação. Como você avalia a perspectiva de criarmos um ecossistema ferroviário que cubra o território nacional, envolvendo NDF-MG, São Paulo, Rio de Janeiro, universidades do Sul e do Norte e Nordeste?
Eng. Paschoal de Mário: Esta é uma iniciativa pela qual venho trabalhando há tempo. É fundamental realizarmos palestras nessas universidades para motivar os estudantes. Quando os alunos abraçam esta ideia, ninguém os detém. A universidade é muito importante, mas precisamos realizar essas palestras nas universidades.
Realizei uma palestra em Ouro Preto sobre a importância do engenheiro civil na construção das ferrovias. Os estudantes ficaram entusiasmados, pois desconheciam completamente o assunto. Muitos nem sabem o que é viajar de trem. Precisamos desenvolver este trabalho de divulgação nas universidades, talvez através de reuniões online, mas devemos implementar um programa de conscientização dos universitários.
Prof. Roberto Willians de Santana: Neste movimento envolvendo universidades e nosso processo inicial de desenvolvimento de certificação, você mencionou adequadamente o debate no IQF sobre manifestações da ABIFER, ALAF e SIMEFRE em relação às compras públicas.
Não podemos ter um movimento de retomada ferroviária sem procedimentos operacionais, planos de ensaio e teste de sistemas e produtos importantes para garantir segurança nas compras, tanto públicas quanto privadas. Como você vê o impacto da existência de normas consolidadas com procedimentos operacionais e planos de ensaio correspondentes, considerando que queremos SER um braço técnico da ANTT e que a ANTF poderia estabelecer parceria conosco como braço técnico para processos de certificação?
Eng. Paschoal de Mário: Quando me convidaram para colaborar com o IQF, disse ao Sérgio que precisávamos trazer a ANTF conosco. Quando assumi o CB-06 em 2004, recebi comunicado da ABNT informando que iriam extinguir o Comitê. Minha primeira providência foi reunir-me com antigos coordenadores e buscar apoio da ANTF. Conversei com Rodrigo Vilaça, então na ANTF, e expliquei que precisávamos fazer o CB-06 exercer efetivamente seu papel. Hoje possuo dez comissões de estudos graças ao apoio que a ANTF me proporcionou.
Se tivermos este apoio da ANTF, avançaremos significativamente. Podemos mobilizar universidades, grandes institutos de pesquisa como Unicamp, IPT, NDF-MG, COPPE etc., além de contar com ANTT e outros órgãos governamentais importantes. Todo o movimento metroferroviário trabalhará efetivamente para impulsionar o setor.
Prof. Roberto Willians de Santana: Quando estabelecemos a parceria entre CB-06 sob sua liderança e o NDF-MG para orientar nossas pesquisas voltadas às normas, realizamos algo inédito. Considero este um grande passo inaugural.
Dentro do aspecto das normas como balizador no setor ferroviário, acredito que não estamos em terra arrasada. Como você mencionou, se não estivéssemos presentes, isso poderia comprometer significativamente a segurança e qualidade ferroviária. Com a presença do IQF, mobilização das normas, operação dos comitês e a possibilidade de entrada da ANTF neste processo, você considera que isso será o grande divisor para processos de compras, segurança e seleção baseada em critérios de qualidade, promovendo concorrência justa no mercado ferroviário nacional?
Eng. Paschoal de Mário: A ANTF disponibilizou uma pessoa para trabalhar no CB-06 – o Mário Barcelos, que atua como secretário de todas as comissões de estudos. Anteriormente, cada comissão possuía seu coordenador e secretário; unificamos com um único secretário para todas as comissões.
Se conseguirmos conscientizar as operadoras ferroviárias de que qualidade é mais importante que preço, e com nossa equipe, desenvolveremos nossa indústria ferroviária e nossas ferrovias. Infelizmente, muitos ainda se preocupam prioritariamente com custo e preço, resultando em situações como a dos trens chineses no Rio de Janeiro.
Precisamos, através da ANTF, fazer com que os presidentes das ferrovias compreendam a importância da qualidade na ferrovia nacional e das fábricas nacionais de produtos ferroviários.
Prof. Roberto Willians de Santana: É importante destacar que, com a nova lei de licitação, os paradigmas técnico e preço são conjugados – não se trata apenas de preço. Nosso setor tem como referência o setor aeroviário: não se pode considerar apenas preço, senão o avião cairia. É necessário ter técnica, qualidade e segurança.
Eng. Paschoal de Mário: Exatamente: preço, qualidade, desempenho e segurança.
Prof. Roberto Willians de Santana: Considerando sua percepção, com a consolidação da presença dos comitês técnicos do IQF, junto com a atual parceria a da ANTF com o CB-06, proporcionará avanço significativo através da certificação voluntária a partir deste ano?
Eng. Paschoal de Mário: Com esses parceiros, Professor, seguiremos tranquilamente. Ninguém nos deterá tendo essa parceria – possuiremos sinergia elevada. Teremos qualidade, bom desempenho nas ferrovias, segurança e, se Deus quiser, segurança nacional.
Prof. Roberto Willians de Santana: A ferrovia é questão de civilização e, sendo questão civilizatória, constitui dever do Estado. É papel do Estado, representa segurança nacional, soberania tecnológica e segurança de nossas operações.
Eng. Paschoal de Mário: Precisamos depender de nossa indústria, não da indústria de terceiros. A participação de empresas estrangeiras é importante – temos empresas de sinalização
europeias de qualidade, como CAF e outras que colaboram estabelecendo fábricas no Brasil, gerando emprego para brasileiros. É importante que venham para o Brasil, mas trazendo mão de obra brasileira e instalando verdadeiramente indústrias no Brasil, não simplesmente importando produtos.
Prof. Roberto Willians de Santana: Na medida em que fortalecemos os procedimentos operacionais à luz das normas do Comitê Brasileiro Metroferroviário, aliados aos processos de certificação do IQF – onde a norma é o referencial técnico e jurídico, e a certificação voluntária cria uma atmosfera de qualidade e segurança – desenvolvendo e concluindo o trabalho dos comitês técnicos, não estaremos criando um novo ordenamento legal e técnico para nosso setor neste processo de retomada?
Eng. Paschoal de Mário: Tudo isso contribuirá perfeitamente para nossas ferrovias. Possuímos o produto, fabricamos com qualidade, temos norma técnica e tecnologia de fabricação. O que falta para a vida ferroviária é apenas a certificação. Uma vez certificado, não precisamos discutir a qualidade do produto – ela garante desempenho e segurança.
Prof. Roberto Willians de Santana: Quanto à inserção internacional e alinhamento técnico: com este avanço e articulação entre ABNT, SIMEFRE através dos comitês técnicos do IQF, e Inmetro, não criamos condições para disputar o mercado latino-americano e até mesmo mercados da África e Oriente Médio?
Eng. Paschoal de Mário: Certamente.
Prof. Roberto Willians de Santana: Durante este processo, podemos conquistar até mesmo o mercado europeu, na medida em que avançamos e internalizamos conhecimento, promovendo trocas e avanços significativos. Como você vê nossa inserção internacional com este alinhamento técnico através das referências das normas ABNT, procedimentos operacionais e planos de ensaio, tornando nossa indústria competitiva internacionalmente?
Eng. Paschoal de Mário: Já estamos exportando produtos através de nossas associações para a América Latina e Ásia. Aqui no Brasil, estamos aceitando material rodante estrangeiro. Empresas brasileiras exportam para a América do Sul, mas importamos material rodante estrangeiro. O problema é que não temos demanda constante – essa é a justificativa apresentada. Eles entregam em um ano, nós em dois, porque possuem demanda constante. Considere o caso dos trilhos: há quanto tempo venho defendendo a fabricação de trilhos novamente no Brasil, como nas fábricas dos anos 70. Alegam que não há demanda, mas existe demanda – é mais fácil importar trilhos que fortalecer a indústria nacional.
Temos na CSN a capacidade de fabricação de trilhos através de empresa subsidiária, como nos anos 70-80. As laminadoras estão paradas. É a mesma situação das montadoras de vagões e carros de passageiros. Se tivermos demanda constante no Brasil, temos condição de produzir 10 mil vagões anuais, mas não há demanda contínua. Consequentemente, a mão de obra é dispensada.
Precisamos conscientizar as operadoras da necessidade de valorizar nossas empresas ferroviárias e fabricantes. Este trabalho deve ser realizado através do IQF, de nossas palestras e esforços.
Prof. Roberto Willians de Santana: As normas internacionais estão vinculadas a ambientes climáticos e geológicos diferentes dos nossos. Nossa indústria desenvolveu capacidade de construir singularidades em nossos processos industriais para atender à demanda, dialogando simultaneamente com normas internacionais.
Isso ficou evidente nos comitês técnicos de eixo, material de atrito e roda, onde comparamos normas alemãs e australianas, ajustando processos. O mais interessante no debate dos comitês técnicos é que possuímos rica base de conhecimento capaz de singularizar, particularizar e adequar tecnicamente à nossa realidade. Como você vê esta questão: as normas internacionais também aprendem conosco, ou apenas nós aprendemos com elas?
Eng. Paschoal de Mário: No CB-06, possuímos verdadeiros cientistas que introduzem nas normas estrangeiras – inclusive AREMA e europeias – adaptações necessárias às nossas vias ferroviárias. São verdadeiros cientistas com tecnologia e capacidade intelectual para isso. Infelizmente, o brasileiro não é valorizado adequadamente. Se o senhor participar de nossas reuniões cotidianas – seja de vagões ou via permanente – ficará impressionado com os cientistas presentes em nossas comissões. São verdadeiros professores.
Prof. Roberto Willians de Santana: Hoje somos referência pela capacidade de introduzir novos elementos nas normas internacionais, pois estas não conseguem dialogar adequadamente com nossa realidade. Somos também referência tecnológica – não é coincidência que exportamos para América Latina, África e Oriente Médio. Esta realidade posiciona nossos produtos e sistemas como competitivos técnica e economicamente.
Como o CB-06 pode aprofundar ainda mais o diálogo entre ABNT/SIMEFRE e o IQF para melhorar os procedimentos de certificação, considerando que estamos inaugurando este processo gradualmente com a retomada ferroviária nacional – seja no Mato Grosso, São Paulo, Minas Gerais, Sul ou Nordeste? Como você vê os papéis do CB-06, IQF e Inmetro neste processo de retomada?
Eng. Paschoal de Mário: Há muito tempo venho tentando constituir um comitê técnico ferroviário. Alguns participaram inicialmente, depois se afastaram. Talvez possamos fazer do CB-06 e SIMEFRE uma entidade única.
Através do IQF, podemos formar um “Fórum Técnico Ferroviário Permanente” dentro do Instituto, realizando reuniões e discussões sobre estes assuntos. O SIMEFRE está à disposição do IQF. Desta forma, construiremos este Fórum Técnico Ferroviário Brasileiro. Inclusive colocamos a disposição a sala do SIMEFRE para esta nobre atividade.
Vamos utilizar essas competências e nos reunir periodicamente para discutir e alavancar nossos trabalhos, transformando ideias em realizações práticas. Vejo muitos eventos que terminam sem continuidade. Se tivermos este fórum técnico dentro do IQF, produziremos muito que será implementado por empresas brasileiras, não apenas permanecendo no papel.
Prof. Roberto Willians de Santana: Como você vê a participação da academia – NDF-MG, IPT, COPPE , Unicamp, Santa Catarina – neste desenvolvimento tecnológico e normativo certificador no IQF? Não considera importante que neste comitê técnico, como fórum permanente, tenhamos processo orgânico para instruir e melhorar os desenhos de pesquisa, dialogando com quem opera efetivamente no ambiente ferroviário?
Eng. Paschoal de Mário: Realizei uma palestra sobre empoderamento. Quando me perguntaram sobre poder, respondi que desejo gerar capacidade coletiva de alterar, melhorar e inovar para a ferrovia – esse é o empoderamento. Neste processo, esses pensadores serão professores dos professores, projetistas dos projetistas, fabricantes dos fabricantes. É isso que precisamos.
A academia inicia este novo caminho, concentrando-se no que importa e transforma positivamente nossa ferrovia. Começa com professores, pesquisadores, sonhadores. A importância da academia é fundamental.
Prof. Roberto Willians de Santana: Compreendo que a ideia de um fórum técnico permanente dentro do IQF, abordando questões ferroviárias técnicas, seria um fórum que se capilariza no universo ferroviário como grande centro pensante técnico para a ferrovia.
Eng. Paschoal de Mário: Exatamente, incluindo reuniões presenciais. É importante começar a desenvolver projetos presencialmente. O presencial é fundamental – algumas reuniões do fórum devem ser verdadeiras reuniões de trabalho. É interessante o formato online, mas se estivermos juntos, olho no olho, há responsabilidade no que estamos propondo.
Prof. Roberto Willians de Santana: Dentro desta perspectiva, gostaria que você explicasse como se organiza o CB-06, como se constrói as normas e qual o papel da presença do IQF como grande parceiro do Comitê Brasileiro Metroferroviário. Como isso fortalece o CB-06 e dinamiza ainda mais sua presença na ferrovia, fazendo com que as normas sejam não apenas referência, mas balizador de procedimentos para garantir qualidade?
Eng. Paschoal de Mário: Certamente isso fortalecerá significativamente nosso trabalho. Possuo alguns trabalhos desenvolvidos pelo colega Aurélio quando começamos a conceber este comitê técnico ferroviário. Posteriormente enviarei ao Professor para que tenha ideia de como estávamos construindo este caminho técnico – nosso comitê técnico ferroviário.
Prof. Roberto Willians de Santana: Para encerrar, na medida em que o IQF se consolida e lançaremos a primeira certificação voluntária, anunciando inclusive a empresa que realizará os procedimentos operacionais de ensaio e teste, isso constituirá elemento fundamental para concorrência justa no mercado, estabelecendo referência mínima de qualidade e caminho para desenvolvimento equitativo entre empresas nacionais e internacionais que devem se instalar no Brasil ou que já operam em nosso território.
Eng. Paschoal de Mário: Perfeitamente, Professor. É exatamente isso que acontecerá se trabalharmos adequadamente. Devo mencionar que transferi minha viagem para Belo Horizonte, originalmente marcada para amanhã às 8h30, para período posterior. Esta viagem estava programada há três meses, mas considerei importante participar desta entrevista e do 2 Encontro do IQF.
Prof. Roberto Willians de Santana: Agradecemos imensamente, meu caro colega.
Eng. Paschoal de Mário: Quando programo viagens, sempre marco passagens com três ou quatro meses de antecedência. Transferi o voo matinal para o período vespertino porque considerei fundamental nossa conversa.
Prof. Roberto Willians de Santana: Gostaria de suas considerações finais, direcionando uma mensagem às empresas, operadoras e gestores sobre a importância do IQF e da qualidade neste momento de transição estrutural que o setor está vivenciando com a retomada ferroviária.
Eng. Paschoal de Mário: É fundamental que a ANTF, ANPTRILHOS, ANTT e demais órgãos públicos e privados conscientizem os operadores ferroviários sobre a importância da qualidade, da indústria nacional e de nossas ferrovias. Devemos trabalhar conjuntamente com ANTT, DNIT e outros órgãos nacionais importantes, incluindo governadores e prefeitos no caso dos VLTs.Precisamos demonstrar a eles a importância da ferrovia, dos trens de passageiros e de carga. Devemos nos unir ao Inmetro e demais entidades de pesquisa e universidades. Isso podemos planejar e implementar através de nosso fórum permanente.
Prof. Roberto Willians de Santana: Perfeito. Mais uma vez, agradeço profundamente sua participação. Amanhã estaremos juntos, se Deus quiser. Disponibilizarei esta entrevista para publicação no site do IQF e em nosso boletim.
Eng. Paschoal de Mário: Excelente. Abraço, Professor.
Prof. Roberto Willians de Santana: Gratidão, meu amigo. Muito obrigado.
Esta entrevista foi realizada como parte da série de diálogos sobre o desenvolvimento do setor metroferroviário brasileiro, destacando a importância da normatização técnica e certificação para o fortalecimento da indústria nacional e a garantia de segurança e qualidade no transporte ferroviário, no dia 19 de Março de 2026, das 11hs até 12 hs.

Eng. Paschoal De Mario
Atuação Institucional e Liderança
Coordenador do Comitê Brasileiro de Transportes e Tráfego (ABNT/CB-006): Lidera a normalização técnica do setor ferroviário na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), garantindo a padronização e a segurança de componentes e sistemas.
Diretor do SIMEFRE: Atua como Diretor de Relações Industriais e Institucionais do Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários.
Conselheiro do Conselho de Tecnologia da ABIFER: Contribui ativamente na Associação Brasileira da Indústria Ferroviária, sendo um elo vital entre a indústria e o desenvolvimento tecnológico.
Certificação de Qualidade: Atuação direta na melhoria dos padrões de qualidade de componentes essenciais para a operação segura das ferrovias.

Prof. Roberto Willians de Santana
Especialista em Projetos Metroferroviários e Políticas Públicas
Formação Acadêmica:
Mestre em Engenharia de Produção – COPPE/UFRJ.
MBA em Gestão de Projetos – USP/ESALQ.
Especialista em Políticas Públicas – CEPERJ/UERJ.
Cientista Social – UFFAtuação Estratégica Atual:
Diretor Técnico da Athenas Projetos: Startup focada em engenharia e tecnologia para a retomada ferroviária (passageiros e carga regional).
Membro do Núcleo de Desenvolvimento Tecnológico Ferroviário (NDF-MG): Atua na articulação entre academia e o poder público para o Plano Estratégico Ferroviário de Minas Gerais.
Membro do Instituto da Qualidade Ferroviária (IQF): Foco em normatização e certificação de componentes ferroviários.
Conselheiro Técnico: Participante ativo em Audiências Públicas na ALMG e em frentes parlamentares municipais da Grande BH para a reativação de trechos ferroviários.
