Em entrevista ao IQF, Marcelo Morais, do Inmetro, destaca o papel estratégico da metrologia, da avaliação da conformidade e da certificação para elevar a segurança, a competitividade e a inserção internacional da indústria metroferroviária brasileira.
Hoje vamos aprofundar um tema essencial para o fortalecimento do setor metroferroviário brasileiro. O papel da metrologia, da avaliação de conformidade e da acreditação como instrumento de segurança e confiabilidade é premente no nosso setor, assim como no setor produtivo em geral.
A experiência internacional mostra que não há desenvolvimento sustentável em setores de infraestrutura crítica sem sistemas robustos que assegurem a qualidade. Normas estabelecem requisitos; a metrologia garante a confiabilidade das medições; e a certificação, apoiada por processos de acreditação, assegura que esses requisitos sejam efetivamente cumpridos. No Brasil, essa estrutura é coordenada pelo Inmetro, que desempenha um papel fundamental na organização do sistema brasileiro de avaliação da conformidade.
Esse tema ganha ainda mais relevância diante de iniciativas como a primeira certificação do setor, lançada pelo Instituto da Qualidade Ferroviária (IQF), em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), apresentada no 2º Encontro do IQF, em março de 2026, representando um avanço na construção de referências técnicas para o setor ferroviário.
Para tratar deste tema estratégico, eu, Sergio Inacio Ferreira, presidente do IQF e pesquisador no IPT, recebo Marcelo Luis Figueiredo Morais, diretor de Metrologia Legal do INMETRO/MIDCD. Desejo boas-vindas e que possamos, nesta entrevista, traçar esse paralelo entre a importância do Inmetro e a iniciativa do IQF na certificação do produto metroferroviário, que hoje é carente no Brasil. Nos outros modais existe certificação, e, no nosso setor, estamos buscando viabilizá-la — e o apoio do Inmetro é fundamental.
Sergio Ferreira – Poderia nos apresentar o papel da Diretoria de Metrologia Legal no âmbito do Inmetro e sua importância para o país? E como o Inmetro se posiciona hoje frente aos desafios da qualidade e segurança em setores de infraestrutura crítica?
Marcelo Morais – Sergio, bom dia. Gostaria de registrar e parabenizar o IQF pela iniciativa, em parceria com o IPT, de buscar atuar de maneira tão ativa na infraestrutura da qualidade e na certificação do setor metroferroviário.
Como órgão central da qualidade no Brasil, o Inmetro vê com muito bons olhos todas essas iniciativas que trazem qualidade aos setores, ainda mais em um setor de infraestrutura no qual o Brasil é tão carente e onde ainda há tanto desenvolvimento por acontecer.
É importante que isso seja feito com padronização e confiabilidade, sempre com foco na segurança e na qualidade dos veículos.
O papel do Inmetro é exatamente intensificar e incentivar que a indústria se movimente nesse sentido, buscando qualidade. E também garantir que todos os padrões de certificação, de aprovação de instrumentos e produtos — todo o ecossistema que envolve o sistema metroferroviário — sejam desenvolvidos com o mais alto grau de confiabilidade, com rastreabilidade aos padrões nacionais de medição e às melhores práticas internacionais de produção e certificação.
Isso permite uma maior inserção do produto brasileiro no mercado exterior, ampliando o acesso e possibilitando que os equipamentos brasileiros sejam desenvolvidos no mais alto nível, ao mesmo tempo em que o produto oferecido no mercado nacional também alcance esse padrão de excelência.
Lembro que, no seminário organizado pelo IQF agora em março, no IPT, falou-se muito sobre a entrada de produtos importados no mercado brasileiro. Isso é positivo — a economia brasileira é aberta. Porém, o fundamental é que esses produtos tenham qualidade reconhecida, principalmente aqueles que impactam a segurança do transporte.
Assim, o papel do Inmetro, da Diretoria de Metrologia Legal e de todas as demais diretorias e coordenações do Instituto é sempre garantir a confiança nas medições desses processos e assegurar que os produtos utilizados no Brasil atendam aos mais altos padrões de qualidade.
Sergio Ferreira – Eu só queria acrescentar que a ideia do IQF não é uma reserva de mercado, mas sim uma reserva de qualidade. Independentemente da origem do produto, o que se busca é que ele seja testado e avaliado aqui no Brasil, tendo como referência, em primeiro lugar, as normas da ABNT e, também, normas internacionais. Ou seja, a proposta é realizar uma customização e uma avaliação dessas normas, conduzindo a uma certificação alinhada às necessidades da realidade brasileira.
Nós queremos uma reserva de qualidade, não uma reserva de mercado — algo que sabemos que não funciona.
Sergio Ferreira – Qual é o papel da metrologia legal na garantia da confiabilidade do produto ou serviço? Poderia detalhar melhor a importância da metrologia, considerando que estamos falando de qualidade, independentemente do produto ou do que se vai avaliar, mas garantindo que essa avaliação seja feita segundo uma normalização adequada e uma certificação que assegure essa qualidade?
Então, qual seria o papel da metrologia legal nesse sistema? E de que forma a rastreabilidade metrológica impacta diretamente a segurança operacional e a confiança da sociedade? Além disso, como essa agenda se conecta com setores de alta criticidade, como o setor metroferroviário?
Marcelo Morais – Ótimas perguntas. A metrologia legal é o ramo regulatório do Inmetro que trata do estabelecimento de requisitos e regras referentes à medição, à rastreabilidade das medições e a tudo aquilo que está no campo compulsório.
Aqui no Inmetro, trabalhamos de maneira muito integrada, com várias diretorias e coordenações participando. No âmbito da infraestrutura da qualidade, temos a padronização primária, conduzida pela Diretoria de Metrologia Científica, onde se inicia toda a rastreabilidade das medições — do mais alto nível até a ponta — com base na definição dos padrões de maior exatidão, utilizados na indústria.
Também temos a parte regulatória, que corresponde ao campo compulsório. Nesse contexto, a metrologia legal atua em conjunto com a metrologia científica. Por exemplo, nas certificações de balanças e em produtos que precisam ser padronizados quanto à indicação de massa, volume e outros parâmetros envolvidos.
Além disso, há a questão da segurança, com a certificação de produtos — como pinos, eixos e rodas — no contexto metroferroviário.
Tudo isso se conecta no sistema de infraestrutura da qualidade, no qual a metrologia legal avalia, regula e certifica as medições e os instrumentos de medição. A acreditação, por sua vez, reconhece a competência de todo o sistema de laboratórios responsável pela rastreabilidade, baseada em padrões calibrados, rastreados e desenvolvidos pela metrologia científica.
Temos ainda os regulamentos e os processos de avaliação da conformidade, desenvolvidos com base nas normas da ABNT e em normas internacionais.
Um ponto importante, especialmente em relação à criticidade, é a avaliação da aplicação dessas normas na realidade brasileira. Muitas vezes, é necessário realizar ajustes ou adaptações, considerando fatores como tipo de pavimento, condições de temperatura e umidade — características próprias do Brasil.
O papel do Inmetro, assim como o da ABNT em sua função de normalização, é avaliar e identificar a aplicabilidade dessas normas internacionais e, quando necessário, adaptá-las. Em muitos casos, também levamos as condições brasileiras para contribuir com essas normas internacionais, apresentando aos diferentes órgãos internacionais a realidade do país, para que ela seja considerada no processo de normalização.
Assim, nosso papel é de integração entre todos esses atores — o Inmetro, por meio de suas diretorias, em conjunto com a indústria — na construção de um sistema de infraestrutura da qualidade robusto, capaz de garantir a qualidade.
Sergio Ferreira – Como o senhor avalia o papel da avaliação da conformidade no desenvolvimento industrial e na infraestrutura brasileira? Qual a importância da acreditação de organismos de certificação no fortalecimento do sistema? E quais são, hoje, os principais desafios para ampliar a cultura de certificação no Brasil?
Marcelo Morais – De início, ressalto que o papel da avaliação da conformidade é de fundamental importância nesse eixo da infraestrutura da qualidade. O MDIC, no ano passado ou retrasado — 2024 ou 2025 —, lançou a Estratégia Nacional de Infraestrutura da Qualidade, na qual a avaliação da conformidade e a supervisão são pilares fundamentais dessa ação, exatamente no sentido de elevar o nível da indústria.
Quando se tem uma avaliação da conformidade robusta e forte, é possível elevar o nível da indústria e também demonstrar para toda a sociedade — no Brasil e no exterior — os padrões de mercado em que o país atua, bem como os níveis de qualidade que o Brasil exige, tanto no mercado interno quanto naquilo que produz para o mercado internacional.
A participação dos organismos nesse sistema robusto de acreditação que temos hoje é fundamental para levar essa estrutura a todos os lugares.
Os principais desafios na cultura da avaliação da conformidade começam por demonstrar que ela não se resume a um selo ou a um certificado. Trata-se de toda uma infraestrutura técnica que sustenta essa certificação. Ou seja, quando um produto é certificado, isso significa que há toda uma estrutura de ensaios, rastreabilidade, segurança e confiança por trás daquele selo de conformidade ou certificado de avaliação da conformidade — e isso é fundamental.
Outro ponto é justamente disseminar essa cultura, o que representa um grande desafio. Além disso, há a questão da infraestrutura para ensaios e avaliações em todo o Brasil. Estamos falando de um país de dimensões continentais, onde, em muitas regiões, a infraestrutura ainda é apenas razoável. Em regiões como Sul e Sudeste, especialmente no eixo Rio–São Paulo, temos uma infraestrutura boa e, em alguns casos, excelente. Porém, ao avançarmos para regiões como Norte, Nordeste e até o Centro-Oeste, essa estrutura diminui significativamente.
Essa desigualdade representa uma deficiência que impacta diretamente o custo Brasil, elevando o custo de produção. Por exemplo, uma empresa localizada na Zona Franca de Manaus que precise certificar seus produtos em São Paulo terá um custo muito maior.
Por isso, o Inmetro criou o PRODIC — Programa de Desenvolvimento da Infraestrutura da Qualidade —, que visa exatamente levar a infraestrutura da qualidade e a acreditação de laboratórios para regiões onde essa estrutura é deficiente. Já foram acreditados alguns laboratórios no Norte e no Nordeste, em estados como Amazonas e Piauí, por exemplo.
Essa atuação é feita em diálogo direto com a vocação local, ou seja, com a demanda específica de cada região. O que temos realizado é o levantamento das indústrias locais que enfrentam dificuldades relacionadas à certificação e, ao mesmo tempo, a identificação de laboratórios que possam se instalar ou oferecer essa infraestrutura da qualidade. A partir disso, o Inmetro atua com suporte técnico para que esses laboratórios sejam acreditados.
Levar a infraestrutura da qualidade para mais perto da indústria é, portanto, um desafio que temos buscado mitigar por meio de iniciativas como essa.
E, naturalmente, há também a questão da qualificação da mão de obra. Ter profissionais nas indústrias com cultura voltada para a qualidade, assim como nos laboratórios, é fundamental. O Inmetro tem realizado diversos esforços para disseminar esse conhecimento ao longo de toda a cadeia produtiva.
Sergio Ferreira – Eu acrescento a questão da inovação. Quando você garante a qualidade, você propicia a melhoria contínua do produto. A partir daí, é possível desenvolver melhor o processo para alcançar a qualidade desejada. Ou seja, a inovação também passa a fazer parte desse processo.
Há também a questão da cultura. Se não tivermos, em um primeiro momento, essa flexibilidade de poder adquirir um produto no exterior sem nos preocuparmos com o custo-benefício — optando, por exemplo, por um produto de menor custo —, isso pode parecer uma facilidade inicial. No entanto, isso acaba gerando uma cultura de não querer ser avaliado.
Às vezes, não ser avaliado parece uma vantagem no curto prazo, mas pode se tornar uma desvantagem no longo prazo.
Marcelo Morais – Exatamente. Pode parecer uma vantagem, mas não é. Isso gera uma série de riscos — é um perigo. Muitas vezes, quanto mais baixo o nível de preço, mais baixo também é o nível de qualidade, o que pode chegar a um ponto em que essa falta de qualidade coloca em risco o próprio produto e a segurança.
Dependendo do grau de criticidade — como é o caso do setor metroferroviário —, isso pode representar um risco econômico para toda a cadeia logística e, inclusive, risco à vida, especialmente em setores críticos como o metroferroviário.
Sergio Ferreira – Na sua visão, quais são os principais desafios para estruturar um ambiente mais robusto de qualidade no setor metroferroviário? E como o Inmetro pode contribuir para o avanço da segurança e da confiabilidade desse segmento? Há referências internacionais que poderiam orientar esse processo no Brasil?
Acrescento que este é um processo contínuo que estamos buscando, e a certificação faz parte dele. Precisamos desenvolver esse sistema para o setor metroferroviário e entender como torná-lo mais robusto. Assim como ocorre em outras áreas, por exemplo, na aviação, em que é necessário atender às normas do país onde a aeronave será utilizada, ou ainda no setor automotivo, com o avanço promovido pelo IQA, que já conta com mais de 50 mil produtos certificados.
Há também o caso da área naval, que iniciou esse processo e, por exemplo, não se obtém o seguro de um navio sem que haja certificação. No setor metroferroviário, a questão é justamente como tornar esse processo robusto, como ocorre em outros setores. Pergunto também se, no campo da segurança e confiabilidade, há referências internacionais que poderíamos utilizar nesse processo.
Marcelo Morais – Podemos começar pelas referências internacionais, não necessariamente em termos de normas técnicas, mas em termos de cultura. Já temos outros setores, como o da aviação e o automotivo, que desenvolveram sistemas de avaliação da conformidade e de certificação, com um arcabouço regulatório bastante robusto e em constante evolução.
No caso do setor metroferroviário, observa-se atualmente um crescimento do transporte sobre trilhos, com maior uso desse modal no Brasil, após décadas em que ficamos mais limitados ao sistema rodoviário. Este é, portanto, um momento muito oportuno para pensar em um sistema de avaliação da conformidade, justamente enquanto esse modal está em expansão, de forma que ele cresça alinhado às melhores normas e práticas de avaliação regulatória robusta.
O desafio é desenvolver esse sistema regulatório de maneira consistente, compartilhada com a sociedade e com todos os atores envolvidos no setor. Certamente, já contamos com normas ISO e outras normas setoriais que podem orientar esse caminho, sempre considerando as necessidades brasileiras como elemento fundamental.
Temos características muito particulares — como condições de solo, topografia e configuração das ferrovias — e, por isso, é importante também buscar referências em modelos mais semelhantes ao Brasil, de modo que possamos desenvolver esse sistema enquanto o modal ainda está em crescimento. Isso porque, após a consolidação do parque instalado, realizar ajustes significativos torna-se muito mais difícil, especialmente em uma indústria tão complexa.
Dessa forma, é fundamental que esse trabalho seja conduzido de maneira conjunta. O papel do IQF é extremamente importante na articulação entre os diversos atores — indústria, operadores, ferrovias e reguladores, como o Inmetro e outros órgãos —, contribuindo para a construção de uma agenda positiva e proativa.
Essa agenda deve buscar identificar prioridades e definir onde atuar primeiro de maneira mais assertiva, compreendendo as principais demandas do setor. Nosso presidente, Marcio, costuma enfatizar a importância de olhar para as dores do setor e atuar de forma objetiva.
Assim, o fundamental é identificar os principais problemas e as soluções que podem ser implementadas no curto prazo, sem deixar de estruturar ações mais amplas no médio e longo prazo. O desafio é consolidar esse diagnóstico, de modo que ele sirva como um verdadeiro direcionador para todo esse trabalho.
Sergio Ferreira – Dentro dessa linha, como o senhor vê o papel de iniciativas como o IQF na articulação da cultura da qualidade no setor metroferroviário? E de que forma a integração entre IQF e IPT — considerando que estamos utilizando o OCP/IPT para iniciar a certificação no setor —, em conjunto com o Inmetro, pode fortalecer o sistema de qualidade no Brasil? Além disso, qual a importância da convergência entre metrologia, normalização e certificação para setores críticos?
Marcelo Morais – Instituições como o IQF são pontos centrais nessa articulação. O Inmetro tem papel regulatório, fiscalizador e acreditador, e a infraestrutura da qualidade é complexa — é necessário envolver entidades públicas e privadas, organismos de normalização e certificação, para que esse processo seja robusto e confiável até a ponta.
Nesse contexto, o IQF é fundamental na interligação desses atores. Atua como uma “argamassa” que conecta todos esses elementos, de modo que tenhamos o regulador para definir as regras, o normalizador para padronizar, os organismos de avaliação da conformidade para executar esse trabalho e o acreditador para verificar a competência de todos esses atores. Ao mesmo tempo, o sistema Inmetro realiza a supervisão de mercado, em conjunto com institutos como o IPT.
Ou seja, há uma verdadeira miríade de organismos que compõem uma engrenagem que precisa funcionar de forma muito bem ajustada: regulamentos, normas, execução, certificação, ensaios — e esse trabalho em parceria é fundamental.
Essa iniciativa do IQF é muito positiva porque começa a mobilizar a infraestrutura da qualidade, além de indicar onde estão as demandas da indústria. Falando pelo Inmetro, é essencial que possamos olhar para essas demandas, já que o Instituto possui uma ampla competência e diversas atribuições regulatórias.
O mais importante é que a indústria aponte com clareza onde estão os principais problemas — onde estão as maiores necessidades — para que possamos direcionar esforços, alocar recursos e também buscar parcerias público-privadas que permitam tirar os projetos do papel. Assim, conseguimos desenvolver ações alinhadas às reais necessidades da sociedade.
Sergio Ferreira – Qual a importância das OCPs nesse processo?
Marcelo Morais – As OCPs (Organismos de Certificação de Produtos) são fundamentais, porque são elas que atuam diretamente na certificação dos produtos e levam a infraestrutura da qualidade até a ponta.
É o produto, em si, que está sendo certificado, e isso torna essencial a atuação conjunta entre OCP e laboratório, tanto na execução da certificação quanto no monitoramento do produto, de acordo com o que estiver estabelecido no regulamento específico.
Dessa forma, o papel das OCPs é absolutamente fundamental dentro desse processo.
Sergio Ferreira – Quais são os caminhos para que iniciativas como esta evoluam e se integrem ao Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade? Qual o percurso para que essas iniciativas realmente passem a fazer parte desse sistema?
Marcelo Morais – O Inmetro atua no campo compulsório. Portanto, é fundamental receber as demandas das indústrias, bem como os dados e todos os elementos desenvolvidos por elas, para que possamos, juntos, estruturar o processo regulatório que culmina na elaboração de regulamentos técnicos. Esses regulamentos darão suporte e caráter compulsório a essa iniciativa, além de conferir confiabilidade e a chancela do Inmetro a todo o processo.
Assim, o encaminhamento é sempre esse: apresentar ao Inmetro a necessidade regulatória para que possamos desenvolver, em conjunto, o regulamento. Esse desenvolvimento não é feito pelo Inmetro de forma isolada — muito pelo contrário —, é construído de maneira ativa com a indústria e pela própria indústria.
Quando falamos em indústria, estamos nos referindo a todos os atores envolvidos: fabricantes de produtos, OCPs, laboratórios — ou seja, toda a cadeia. O objetivo é desenvolver regras e normas em conjunto, também com o apoio da normalização, para a elaboração desses regramentos.
Uma vez que esses regulamentos se tornam compulsórios, quando necessário, passam a elevar o nível de qualidade e a garantir que todo o mercado opere em um mesmo patamar de qualidade.
Sergio Ferreira – Pensando no futuro, quais tendências devem impactar a metrologia, a certificação e a qualidade? Como temas como digitalização, inteligência artificial e sustentabilidade se conectam à agenda do Inmetro? E o que ainda precisa avançar no Brasil para consolidar uma cultura mais robusta da qualidade?
Marcelo Morais – Temas como digitalização, inteligência artificial e sustentabilidade são cada vez mais relevantes, e isso impacta diretamente o trabalho do Inmetro. Um dos grandes desafios é garantir que a regulação não se torne um entrave à inovação.
Do ponto de vista regulatório, esse é um desafio significativo, pois estamos diante de um mercado que se transforma cada vez mais rapidamente. A indústria tem demandas cada vez mais urgentes, e o tempo de desenvolvimento e maturação de um produto hoje é muito menor do que há 20 ou 30 anos. O sistema regulatório precisa acompanhar esse ritmo.
A tendência é incorporar inteligência aos regulamentos, de forma que não criem barreiras à inovação, mas que, ao contrário, promovam a convergência com as melhores práticas. Atualmente, poucos regulamentos são completamente fechados.
No Brasil, há uma tendência de convergência regulatória alinhada às melhores práticas internacionais e também de construção de processos cada vez mais rápidos, robustos e confiáveis. Nesse contexto, o uso da inteligência artificial tem um papel importante. No campo da medição e da certificação, buscamos utilizar essas tecnologias para identificar falhas antes que ocorram, antecipando problemas.
As tendências apontam para a incorporação crescente de tecnologia, permitindo uma capacidade maior de monitoramento e análise. Naturalmente, ainda enfrentamos desafios, como custos, desenvolvimento de ferramentas e a digitalização efetiva dos processos. Não se trata apenas de transformar documentos em PDF, mas de ter a capacidade de observar e receber dados em tempo real — provenientes de medições, ensaios e do comportamento de instrumentos.
Recentemente, estive em uma base da Vale, no interior do Pará, onde analisávamos como poderíamos receber, em tempo real, os dados de medição de uma balança ferroviária instalada na produção. A partir disso, seria possível integrar todo o sistema de pesagem daquela linha e identificar possíveis pontos de falha, problemas ou tendências ao longo do tempo.
Esses são exemplos de ações que vêm sendo desenvolvidas para ampliar o uso da análise de dados e da inteligência artificial, permitindo antecipar situações e atuar de forma mais sutil possível, evitando intervenções abruptas que possam interromper processos produtivos.
Sergio Ferreira – Como mensagem final, o que o senhor diria aos profissionais e às organizações do setor metroferroviário sobre a importância da metrologia, da certificação e da qualidade?
Marcelo Morais – A mensagem é sobre a importância da metrologia e da avaliação da conformidade para o setor metroferroviário, assim como para todos os demais setores da infraestrutura brasileira. É fundamental compreender que esses atores também fazem parte desse sistema.
Não se trata de um sistema do Inmetro, nem de algo que atenda apenas a institutos de pesquisa, institutos de qualidade ou laboratórios. A infraestrutura da qualidade é uma responsabilidade de todos — e traz benefícios para todos. Por outro lado, a ausência dessa infraestrutura é prejudicial para todo o setor.
Todo operador do setor metroferroviário, por exemplo, se beneficia de uma infraestrutura da qualidade robusta, seja pela segurança, pela melhoria das condições de trabalho ou pela capacidade de agregar valor às atividades que o setor desenvolve.
A minha principal mensagem é de pertencimento — o entendimento de que cada ator faz parte desse sistema. Ao mesmo tempo em que contribui para a infraestrutura da qualidade, também pode utilizá-la para melhorar seu trabalho e sua qualidade de vida.
Sergio Ferreira – Encerrando a entrevista, quero agradecer muito a sua disponibilidade em participar. Foi muito esclarecedora essa relação do Inmetro com o sistema de qualidade e sua contribuição para o setor metroferroviário.
Desde o primeiro momento do meu contato com o Inmetro — que também foi uma recomendação do nosso patrono, o ministro e vice-presidente Geraldo Alckmin — sempre fomos muito bem recebidos por todos, que se colocaram à disposição para apoiar e construir parcerias.
Inclusive, a ideia de que a primeira certificação voluntária do setor fosse realizada por meio de uma OCP, para reduzir o tempo necessário para alcançarmos os primeiros resultados, foi uma sugestão do próprio Inmetro.
Queremos agradecer muito ao Inmetro e destacar que estamos caminhando juntos nesse processo para melhorar a qualidade, a eficiência e, principalmente, a segurança do nosso setor, em paralelo ao fortalecimento da nossa indústria — tornando-a cada vez mais integrada a uma cadeia internacional de suprimentos.
Nosso muito obrigado!
Marcelo Morais – Com certeza, nós também agradecemos. As portas do Inmetro estão sempre abertas — podem contar conosco. Tenham o Inmetro como um grande parceiro.
O vice-presidente Geraldo Alckmin sempre nos trouxe essa orientação e essa visão, que se mantêm atualmente com o ministro Marcio Elias e com o presidente Marcio.
Vejam no Inmetro um parceiro de primeira hora. Contem sempre conosco, tragam suas demandas e tenham a certeza de que o Instituto atuará sempre ao lado de vocês, buscando contribuir para a elevação da qualidade da nossa indústria.
Entrevista realizada em 29 de abril de 2026.
Currículo resumido de Marcelo Luis Figueiredo Morais, diretor de Metrologia Legal do INMETRO/MIDCD

Matemático, com especialização e mestrado em Metrologia e Qualidade. É servidor efetivo do Inmetro desde 2002.
Atuou em atividades técnicas relacionadas ao controle metrológico de instrumentos de medição, especialmente na área de pesagem. Também atua como instrutor em treinamentos e cursos voltados à metrologia legal.
Coordenou processos de regulamentação metrológica e exerceu funções gerenciais em diversas unidades da Diretoria de Metrologia Legal do Inmetro.
Representa o Brasil em fóruns internacionais, como a Comissão de Metrologia do Mercosul e a Organização Internacional de Metrologia Legal.
Exerce o cargo de Diretor de Metrologia Legal do Inmetro desde 2023.
