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ENTREVISTA | IQF

Qualidade e certificação no centro do futuro metroferroviário

Nesta entrevista, Sebastião Castilho detalha como a certificação conduzida pelo IQF fortalece padrões técnicos, segurança operacional e desenvolvimento do setor.

O setor metroferroviário brasileiro vive um momento estratégico de amadurecimento. Enquanto outros modais de transporte — como o aeronáutico, o automobilístico e o marítimo — já operam há décadas sob rigorosos sistemas de certificação e qualidade, o segmento ferroviário inicia agora um movimento estruturado para consolidar esses mesmos pilares.

À frente desse processo está o Instituto da Qualidade Ferroviária (IQF), que conduz os trabalhos para a criação da primeira certificação voluntária do setor metroferroviário brasileiro, com lançamento previsto para o 2º Encontro IQF, em março de 2026, no IPT.

Para falar sobre esse marco histórico, a newsletter do IQF entrevista Sebastião Castilho, engenheiro mecânico, especialista em controle de projetos, com sólida trajetória nos setores aeronáutico, automotivo e ferroviário. Atualmente, Sebastião é Gerente de Qualidade da GBMX e Coordenador dos Comitês para Certificação de Materiais Metroferroviários do IQF, liderando os trabalhos técnicos nas áreas de Rodas, Eixos e Materiais de Atrito.

A entrevista é conduzida por Alexandre Vacchiano de Almeida, diretor-técnico do Clube de Engenharia do Brasil e conselheiro do IQF.

Nesta conversa, abordamos a Qualidade como eixo estruturante do setor, os ganhos em segurança e eficiência operacional, os benefícios competitivos para a indústria e o papel da certificação como indutora de inovação e de investimentos de longo prazo — não como barreira, mas como instrumento de desenvolvimento sustentável.

Sebastião, seja muito bem-vindo. É um prazer tê-lo conosco.

Contexto institucional e governança

“Ao estabelecer padrões claros e critérios técnicos comuns, o processo de certificação cria um ambiente mais equilibrado, no qual a competição se dá com base em desempenho, conformidade e capacidade técnica comprovada.”

– Sebastião Castilho

Sebastião – Os comitês técnicos têm como papel central promover uma evolução estruturada do modelo ferroviário, rompendo com práticas do passado que já não se sustentam, sem perder a essência técnica que caracteriza o setor. Historicamente, a ferrovia operou sob uma lógica fortemente verticalizada, na qual os operadores assumiam responsabilidades que hoje extrapolam seu verdadeiro papel.

No cenário atual, é fundamental que os operadores concentrem seus esforços no core business, o transporte seguro e eficiente de pessoas e cargas, enquanto a cadeia produtiva se organiza de forma madura, técnica e disciplinada.

A construção de um sistema de certificação começa justamente pela definição clara do que é tecnicamente relevante em cada componente, associada a uma metodologia consistente para avaliação da cadeia de fornecimento. O objetivo não é criar modelos paralelos ou soluções artificiais, mas estruturar e harmonizar práticas já consolidadas no mercado, promovendo previsibilidade, transparência e credibilidade técnica.

Sebastião – Entre os comitês atualmente ativos, o Comitê de Eixos é o que se encontra em estágio mais avançado. Já foi concluído o documento de “Requisitos de Avaliação de Conformidade”, que estabelece de forma objetiva os parâmetros técnicos, critérios de aceitação e aspectos críticos a serem avaliados.

Além disso, foram definidos o método e o procedimento para avaliação dos fornecedores que integrarão o processo de certificação. Todo esse trabalho foi conduzido com um princípio claro: não criar novos modelos, mas adotar, sistematizar e praticar padrões amplamente reconhecidos e consolidados pelo mercado.

A expansão para novos comitês permitirá ampliar a abrangência da certificação, mantendo coerência metodológica e fortalecendo a visão sistêmica do material rodante e componentes/sistemas da infraestrutura, na qual cada componente é tratado com o mesmo nível de rigor técnico.

Sebastião – O setor vive um momento de retomada, expansão e forte volume de investimentos, o que consolida o transporte ferroviário como um caminho estratégico e irreversível para o país. Esse novo ciclo exige um ambiente mais organizado, previsível e tecnicamente estruturado.

Sem critérios claros e uma metodologia consistente de avaliação, o mercado tende a operar de forma reativa, com decisões baseadas em percepções pontuais e não em fundamentos técnicos robustos. A certificação surge, portanto, como um instrumento essencial para organizar o mercado, elevar o nível técnico da cadeia produtiva e criar uma base comum de requisitos, reduzindo riscos operacionais e sistêmicos.

Sebastião – O principal aprendizado é que não há atalhos. A consolidação de um sistema de certificação exige tempo, disciplina e compromisso coletivo. O setor automotivo é um exemplo claro: o IQA (Instituto da Qualidade Automotiva), concebido em 1993, levou décadas para se consolidar e hoje é um benchmark de sucesso.

De forma semelhante, os setores naval e aeronáutico evoluíram a partir de práticas estruturadas que contribuíram para a consolidação da ISO 9001, norma que universalizou critérios de gestão da qualidade e serviu de base para diversos segmentos. O setor ferroviário pode, e deve, absorver essas lições, adaptando-as à sua realidade, sem reinventar conceitos já comprovadamente eficazes.

Sebastião – Todo sistema ferroviário é composto por múltiplos componentes, cada um com funções específicas e impacto direto na segurança e na confiabilidade do conjunto. Nesse contexto, a certificação atua ao estruturar a avaliação de cada componente de forma consistente, garantindo que ele atenda aos requisitos técnicos esperados ao longo de seu ciclo de vida.

Um ponto crucial, e ainda pouco explorado no setor, é a definição clara das condições de contorno do componente e do sistema, bem como a identificação objetiva do que é realmente crítico para o desempenho e a segurança operacional. Ao estabelecer esses limites e critérios de forma transparente, a certificação reduz incertezas, melhora a tomada de decisão técnica e contribui diretamente para operações mais seguras e confiáveis.

Mercado e competitividade

“A certificação surge como um instrumento essencial para organizar o mercado, elevar o nível técnico da cadeia produtiva e criar uma base comum de requisitos, reduzindo riscos operacionais e sistêmicos.”

– Sebastião Castilho

Sebastião – Tive a oportunidade de vivenciar o período de reserva de mercado iniciado em meados da década de 1970 e encerrado no início dos anos 1990. Os resultados desse modelo são amplamente conhecidos e demonstram, de forma inequívoca, que ele não se sustenta ao longo do tempo.

Sou um defensor da concorrência saudável, baseada na igualdade de condições técnicas e comerciais. Nesse sentido, o IQF atua na criação de mecanismos que não privilegiem fornecedores específicos, mas que estabeleçam critérios qualitativos claros e transparentes para toda a cadeia produtiva. A certificação não restringe o acesso ao mercado; ao contrário, cria um ambiente mais equilibrado, no qual a competição se dá com base em desempenho, conformidade e capacidade técnica comprovada.

Sebastião – Diferentemente de outros segmentos, os componentes ferroviários não são produtos de prateleira e tampouco comercializados no varejo. Trata-se de um mercado eminentemente técnico, no qual decisões de compra envolvem riscos operacionais, de segurança e de confiabilidade ao longo de todo o ciclo de vida do produto.

Nesse contexto, a certificação representa uma vantagem competitiva relevante, pois permite que fabricantes e fornecedores demonstrem, de forma objetiva, que seus processos produtivos e seus produtos foram avaliados por um agente externo independente, com base em critérios rigorosos e reconhecidos. Para os operadores, isso se traduz em maior previsibilidade, redução de riscos e maior confiança nas decisões técnicas e comerciais.

Sebastião – A certificação não conduz a um modelo de reserva de mercado, mas sim à ampliação e ao amadurecimento do mercado, sustentado por regras claras e condições de igualdade. Ambientes estruturados, previsíveis e tecnicamente organizados são, historicamente, mais atrativos para investimentos.

Nesse cenário, torna-se natural que as empresas realizem investimentos em capacitação, processos e tecnologia para atender a uma demanda crescente, impulsionada pelos atuais programas de investimento em infraestrutura. A certificação contribui diretamente para reduzir incertezas, o que é um fator decisivo para investidores e para o planejamento de médio e longo prazo do setor.

Sebastião – É amplamente reconhecido no setor ferroviário que a frota de vagões de carga, por exemplo, apresenta uma idade média elevada, o que impacta diretamente a produtividade, a disponibilidade e a segurança das operações.

A busca sistemática pela Qualidade evidencia a necessidade de renovação da frota, de forma análoga ao que ocorreu/ocorre na indústria automotiva. Vagões mais modernos incorporam concepções de projeto atualizadas, materiais mais adequados e componentes compatíveis com as exigências operacionais, ambientais e de segurança do século XXI. Isso resulta em maior durabilidade, redução de custos ao longo do ciclo de vida e maior sustentabilidade dos projetos.

Sebastião – O trabalho que vem sendo desenvolvido é fruto de construção coletiva, baseada em critérios técnicos, diálogo com o mercado e respeito às boas práticas consolidadas. Trata-se de uma oportunidade concreta de elevar o nível da cadeia produtiva nacional.

Minha mensagem ao mercado é clara: que os operadores e demais atores do setor aproveitem esse momento para alavancar a indústria brasileira, fortalecer fornecedores, estimular a inovação e criar uma base técnica sólida que sustente o crescimento do setor metroferroviário de forma segura, competitiva e sustentável.

Abordagem técnica e normativa

“Ambientes estruturados, previsíveis e tecnicamente organizados são, historicamente, mais atrativos para investimentos — e é exatamente isso que a certificação busca promover.”

– Sebastião Castilho

Sebastião – A abordagem adotada é objetiva e pragmática. Partimos da identificação das normas técnicas utilizadas nos principais mercados ferroviários internacionais, bem como das normas brasileiras aplicáveis, e realizamos uma análise crítica comparativa entre seus requisitos, criando uma matriz comparativa.

A partir dessa análise, selecionamos os critérios mais adequados à realidade do mercado brasileiro, sempre considerando as particularidades das nossas operações, condições ambientais, regime de carga, perfil de manutenção e maturidade da cadeia produtiva. O foco não é replicar integralmente modelos externos, mas construir uma base normativa consistente, tecnicamente robusta e aderente ao contexto nacional.

Sebastião – No Comitê de Eixos, esses critérios foram estruturados em conjunto com o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), resultando em um procedimento que contempla requisitos de conformidade, ensaios, rastreabilidade e auditoria de processo, sempre alinhado às práticas consolidadas do mercado e sem a criação de novos modelos.

A intenção é estender essa mesma lógica aos demais comitês, realizando apenas ajustes pontuais em função das características específicas de cada produto. Importante destacar que esses documentos são tratados como “documentos vivos”, sujeitos a revisões e aprimoramentos contínuos à medida que o processo de certificação evolui e ganha maturidade.

Sebastião – Esse é, possivelmente, um dos principais diferenciais da certificação. Ao considerar as particularidades das operadoras brasileiras, o IQF cria um espaço técnico comum, no qual requisitos essenciais são harmonizados ao longo de toda a cadeia de suprimentos.

A participação ativa das operadoras é fundamental nesse processo, pois permite que os documentos do IQF reflitam, de forma equilibrada, os aspectos realmente críticos para cada realidade operacional. Com isso, reduz-se a dispersão de requisitos, melhora-se a comunicação técnica entre as partes e eleva-se o nível de consistência e previsibilidade do mercado.

Sebastião – Sim, essa possibilidade está sendo considerada desde a concepção dos documentos do IQF, especialmente no que se refere à auditoria de processos. A ideia é reconhecer e valorizar sistemas de gestão já consolidados, evitando redundâncias e sobreposições desnecessárias.

Além disso, a ISO 22163, norma específica para o setor ferroviário, já está sendo considerada como referência importante nesse contexto. Essa abordagem favorece a interoperabilidade entre sistemas, facilita a adaptação de fornecedores que atuam em múltiplos setores e reforça a credibilidade técnica da certificação.

Sebastião – Os ganhos técnicos não são mensurados de forma imediata, pois estão associados ao desempenho ao longo do ciclo de vida dos componentes. No entanto, efeitos positivos já poderão ser observados nas inspeções de recebimento, na redução de não conformidades e na maior consistência dos produtos aplicados nos vagões.

Com o avanço do tempo e a consolidação da certificação, indicadores como confiabilidade em operação, redução de falhas prematuras e aumento do ciclo de vida útil passarão a atender de forma mais consistente aos parâmetros exigidos pelas operadoras, evidenciando, na prática, os benefícios do processo.

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Sebastião Castilho – Engenheiro mecânico, com especialização em controle de projetos, possui experiência profissional, com 12 anos no segmento aeronáutico, 18 anos no segmento automotivo e 14 anos no segmento ferroviário. Atualmente, ocupa a função de Gerente de Qualidade da GBMX e atua como Coordenador dos Comitês para Certificação de Materiais Metroferroviários do IQF.
Alexandre Vacchiano de Almeida – Diretor-técnico do Clube de Engenharia do Brasil e conselheiro do IQF