A certificação de componentes ferroviários vai muito além da conformidade técnica: é um instrumento para fortalecer a qualidade, a confiabilidade, a segurança e a competitividade do transporte sobre trilhos no Brasil.
por Aline Cotta Dinis.
Gerente de Núcleo de Certificação de Produtos no Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT)
Introdução
O transporte ferroviário tem papel estratégico na mobilidade urbana e na logística, destacando-se pela elevada capacidade de transporte e contribuição para a sustentabilidade.
A infraestrutura dos sistemas de transporte ferroviário pode ser dividida em quatro pilares fundamentais: via permanente, sistemas de eletrificação, material rodante e sinalização e controle. O material rodante é constituído pelos veículos que se deslocam sobre trilhos, como trens, utilizados para o transporte de cargas e passageiros, bem como para atividades de manutenção da via permanente, constituindo o objeto da proposta inicial de certificação para o setor.
Componentes como rodas, eixos e sistemas de freio operam sob condições severas e falhas nesses elementos podem comprometer a disponibilidade, a segurança e o desempenho do sistema. Por meio de processos estruturados de avaliação da conformidade, é possível verificar se os produtos atendem aos requisitos técnicos, normativos e de desempenho estabelecidos para sua aplicação. A certificação atua como ferramenta para promoção da qualidade e fortalecimento da confiança entre fabricantes, operadores e usuários.
Com o propósito de trabalhar na melhoria contínua da qualidade e avaliação do desempenho dos produtos do setor ferroviário, o IPT OCP / NuCert – Núcleo de Certificação de Produtos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) vem desenvolvendo regulamentos para certificações voluntárias dos componentes de materiais rodantes (trens), com base em requisitos da avaliação da conformidade publicados pelo IQF – Instituto da Qualidade Ferroviária.
A segurança depende da qualidade dos componentes
Segundo o último balanço divulgado pela ANPTrilhos, em 2024, os sistemas de transporte de passageiros sobre trilhos no Brasil transportaram aproximadamente 2,57 bilhões de passageiros ao longo do ano, registrando crescimento de 3,6 % em relação a 2023.
Além dos impactos na mobilidade urbana, o setor contribuiu para redução da emissão de 2,4 milhões poluentes e 1,2 bilhão de litros de combustíveis fósseis deixaram de ser utilizados.
Diante da dimensão e da complexidade desses sistemas, torna-se indispensável garantir que os componentes utilizados no transporte ferroviário atendam a elevados padrões de qualidade, desempenho e segurança.
Quanto maior o número de componentes certificados, maior tende a ser a confiabilidade do sistema. Há uma relação direta entre qualidade, atendimento aos requisitos de desempenho e certificação, conforme ilustrado na Figura 1.
Figura 1 – Relação entre qualidade, requisitos de desempenho e certificação

Fonte: Elaboração própria
O papel da certificação na prática
A certificação de produtos tem o objetivo de gerar confiança entre as partes interessadas de que um produto atende aos requisitos especificados. O valor da certificação está associado ao grau de confiança estabelecido por meio da demonstração imparcial e competente, realizada por uma terceira parte, da conformidade com tais requisitos.
A certificação de eixos ferroviários foi a primeira certificação voluntária desenvolvida pelo IPT OCP / NuCert para esse setor. O RCC – Regulamento para Certificação da Conformidade descreve o procedimento para a concessão e manutenção do uso da marca do “IPT OCP” em conformidade com o RAC – Requisito de Avaliação de Conformidade para Eixos Ferroviários e Metroferroviários elaborado pelo IQF – Instituto da Qualidade Ferroviária, que especifica condições de desempenho e adequado nível de segurança.
O regulamento do IPT OCP/NuCert atende ao esquema do modelo 5 de certificação, incluindo uma avaliação inicial que contempla auditoria do sistema de gestão da qualidade, auditoria do processo produtivo, seleção e lacres de amostras de produtos e ensaios dos produtos amostrados em laboratórios aprovados pelo IPT OCP; além de etapas posteriores de manutenção; de maneira a se certificar que as condições observadas inicialmente permanecem ao longo do período de validade do certificado de conformidade.
Após aprovação na avaliação inicial, o IPT OCP emite certificado com validade de cinco anos e autoriza o uso da marca de conformidade, sendo possível solicitar recertificação ao término do período.
A certificação voluntária de eixos ferroviários representa um importante marco para o setor. Com base nessa experiência, novos regulamentos para outros componentes críticos encontram-se em desenvolvimento, ampliando gradativamente o escopo da avaliação da conformidade e contribuindo para o fortalecimento da cultura de qualidade, segurança e confiabilidade no ambiente ferroviário brasileiro.
Certificação: Benefícios e perspectivas para o setor
A certificação de componentes gera vantagens para toda a cadeia do setor ferroviário. Para os fabricantes, fortalece a credibilidade da empresa perante clientes e órgãos contratantes e facilita o acesso a novos mercados. Para os operadores proporciona maior confiabilidade operacional, redução de falhas em serviço e aumento da disponibilidade dos sistemas, além de contribuir para a diminuição de custos de manutenção corretiva. E, para os usuários, os benefícios são percebidos na forma de viagens mais seguras, e redução da ocorrência de interrupções, atrasos e incidentes que impactam diretamente a experiência dos passageiros.
O crescimento da movimentação de cargas no Brasil evidencia a importância estratégica do transporte sobre trilhos para a economia nacional. Um exemplo recente é o Porto de Santos, que registrou recorde de movimentação no primeiro quadrimestre de 2026, alcançando 59,3 milhões de toneladas, um aumento de 6,6 % em relação ao mesmo período do ano anterior. Os resultados foram impulsionados principalmente pelo crescimento da movimentação de granéis sólidos e líquidos, com destaque para soja, açúcar, diesel e combustíveis.
Esse cenário demonstra a crescente demanda por sistemas logísticos eficientes, capazes de transportar grandes volumes com segurança, regularidade e previsibilidade. Nesse contexto, o modal ferroviário desempenha papel fundamental, seja na integração com os portos, seja no escoamento da produção agrícola e industrial do país.
O aumento do volume transportado eleva os desafios relacionados à segurança operacional e à confiabilidade dos componentes ferroviários, que são submetidos a elevados níveis de esforço e desgaste, exigindo padrões rigorosos de qualidade e desempenho para garantir a continuidade das operações.
É nesse ponto que a certificação de componentes se torna uma ferramenta estratégica. Em um cenário de crescimento contínuo da demanda por transporte, a certificação deixa de ser apenas um requisito de conformidade e passa a atuar como um importante mecanismo de gestão de riscos e de sustentação da eficiência operacional.
Conclusão ou considerações finais
A certificação de componentes e sistemas aplicados ao setor ferroviário representa mais do que um mecanismo de avaliação da conformidade: constitui uma ferramenta estruturante para promoção da qualidade, confiabilidade e desempenho ao longo do ciclo de vida dos produtos. Ao estabelecer critérios objetivos e processos sistemáticos de avaliação, a certificação contribui para reduzir incertezas, aumentar a confiança entre fabricantes, operadores e usuários e fortalecer a competitividade do setor.
A certificação desses componentes será um marco muito importante na evolução desse modal no Brasil, que, juntamente com o aumento de investimento nessa área, deverá elevar o nível de qualidade e excelência, equiparando-se a outros modais, tais como o aeronáutico, o naval e o automotivo, onde a certificação de terceira parte é reconhecida como fundamental e necessária.
A certificação de materiais rodantes representa um passo relevante para o desenvolvimento do modal ferroviário no Brasil e poderá estimular futuras iniciativas envolvendo os demais pilares da infraestrutura ferroviária.
Referências
Revista Ferroviária RF , disponível em : https://revistaferroviaria.com.br/2026/05/porto-de-santos-registra-recorde-de-movimentacao-no-primeiro-quadrimestre-de-2026/
Balanço do Setor Metroferroviário no Brasil, ANP Trilhos, 2024. Disponível em Balanço do Setor Metroferroviário no Brasil 2024 – ANPTrilhos
Mini currículo da autora
Aline Cotta Dinis – é Gerente de Núcleo de Certificação no NuCert – Núcleo de Certificação de Produtos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Atua na gestão de programas de certificação e avaliação da conformidade, com experiência em certificação compulsória e voluntária de produtos e acreditação do organismo de certificação IPT OCP junto ao Cgcre/Inmetro. Mestre em Processos Industriais (IPT), Bacharel em Química (Faculdades Oswaldo Cruz).
E-mail: acotta@ipt.br / ocp@ipt.br
